Número de homicídios de pessoas LGBT bate recorde em 2016
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quarta-feira, 04 de janeiro de 2017
Celso Felizardo<br>Reportagem Local<br>Com Folhapress 

Três travestis foram assassinados em Londrina em 2016. A primeira, de 28 anos, foi encontrada esquartejada em um hotel no centro da cidade, em março. O corpo da segunda, de 34 anos, foi encontrado enterrado de cabeça para baixo em um terreno na zona leste, em julho. A última vítima, de 22 anos, foi morta a facadas próximo à Avenida Leste-Oeste, na região central, em setembro. Os crimes brutais engrossam estatísticas alarmantes. O número de assassinatos de gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais (LGBT) bateu recorde no ano que terminou.
Segundo o Relatório de Assassinatos LGBT no Brasil, do Grupo Gay da Bahia (GGB), pelo menos 329 homossexuais foram mortos em 2016 em todo o País, 11 a mais que o número registrado no ano anterior. O grupo alerta que os dados de 2016 podem ser ainda maiores. "Temos alguns casos aguardando confirmação e o ano deve ser fechado com aproximadamente 340 mortes. Em 36 anos que monitoro os dados, nunca chegamos a esse número", afirma Luiz Mott, antropólogo fundador do GGB.
Segundo ele, o aumento se deve a vários fatores, como a coleta mais sistematizada de informações e a reação conservadora ao maior número de pessoas que vêm assumindo sua condição sexual. "Hoje, tem mais homossexuais e trans saindo do armário por causa das paradas gays e outras campanhas; e isso os deixa mais expostos a situações de violência, o que levou ao aumento generalizado de crimes", explica Mott.
O estudo mostra que a maior parte das mortes (195) ocorreu em via pública, por tiros (92), facadas (82), asfixia (40) e espancamento (25), entre outras causas violentas. O assassinato de gays lidera a lista com 162 casos, seguido por travestis (80), transexuais femininas (50) e transexuais masculinos (13).
A subnotificação das mortes ainda é um desafio para as entidades que monitoram o problema. Mas, só pelos resultados do último relatório, a ONG constatou que uma pessoa LGBT morre a cada 28 horas no Brasil. E se a tendência de aumento se confirmar, o intervalo pode cair para 24 horas. "É apenas a ponta do iceberg, porque muitos são assassinados e as testemunhas escondem", diz Mott.
Os números detalhados por Estados não foram divulgados, mas segundo o Grupo Gay da Bahia, o Nordeste lidera o número de casos no País. A Secretaria Estadual de Segurança Pública e Administração Penitenciária do Paraná (Sesp) informou que não tem dados específicos de homicídios de homossexuais. Segundo a assessoria de imprensa do órgão, em muitos dos casos a família identifica a vítima como homem ou mulher, para evitar maior exposição ou até constrangimento. A Sesp informou ainda que, apesar de não ter uma delegacia específica ao público LGBT, mantém um grupo técnico de trabalho e reuniões periódicas com representantes da comunidade.
Segundo o professor curitibano Toni Reis, um dos fundadores do Grupo Dignidade, a primeira organização paranaense voltada para a promoção dos direitos da comunidade LGBT, mais de 200 homossexuais já foram assassinados no Estado nos últimos 25 anos. Ele ressalta que a situação é pior nas última década. "Há de se ressaltar dois fatores: o conservadorismo e o fundamentalismo religioso. Uma pessoa com tamanho poder, como um líder religioso, dizer que você é uma abominação, não te mata, mas afia a faca", analisa.
Para Reis, a chave para a mudança passa pela educação. "As maiores vítimas desses crimes no Paraná são travestis que têm ligação com prostituição e com drogas. Com maior grau de escolaridade, ela não precisa se submeter aos perigos de fazer ponto nas ruas", argumenta. "Difícil mudar essa realidade quando 73% dos jovens gays relatam já terem sofrido bullying nas escolas, quando 60% se sentem inseguros e 37% já apanharam", lamenta.


