Rio, 12 (AE) - Estimativa da Associação Brasileira de Banco de Olhos e Transplante de Córnea (ABBO) revela que o número de doadores caiu pela metade no ano passado a despeito da lei promulgada em 1997, que torna a doação de órgãos compulsória. Segundo números divulgados hoje no 10º Congresso Internacional da ABBO, em 1997 foram realizados cerca de 2.500 transplantes de córnea. No ano passado, as cirurgias não passaram de 1.500. "Está faltando córnea porque as pessoas não estão querendo doar", afirmou o presidente da ABBO, Luiz Alberto Molina.
A lei 9.434, que prevê a doação automática de órgãos, foi aprovada em fevereiro de 1997. Desde essa data, só não é doador quem deixar essa vontade registrada na carteira de identidade ou na de motorista. Mas a polêmica em torno da lei foi tanta que o governo acabou baixando uma medida provisória garantindo que nenhum órgão seria doado sem a prévia autorização da família do morto. "A população ficou assustada e as famílias estão interferindo muito na doação", afirmou Molina, apontando uma das razões para a diminuição do número de doadores.
Segundo Molina, a maioria das pessoas que renovou os documentos optou por não ser doador. "A lei é ótima, mas não houve esclarecimento à população, que reagiu muito mal à imposição", disse. "Além disso, a fila única para os órgãos não funciona." Outro indicador de que o número de doadores diminuiu é o aumento do tempo de espera na fila de transplantes. "Há dois anos, a espera por uma córnea era de seis a dez meses; atualmente é de até três anos", contou.
Antes da lei, os médicos costumavam trabalhar também com córneas enviadas do exterior. "Como a lei não trata desse assunto, não podemos continuar com a prática porque não temos respaldo legal", disse Molina. O oftalmologista Morizot Leite Filho concorda com o colega. "Tenho uma moça com um olho perfurado e uma criança com problemas nos dois olhos e, simplesmente, não há córneas", afirmou.

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