Por Ivana Moreira Enviada especial
Pouso Alegre, MG, 05 (AE) - Subiu para 71,9 mil o número de desabrigados em Minas Gerais. Já são oito os mortos em decorrência das chuvas que castigam principalmente o sul do Estado desde a virada do ano. A situação se complicou hoje em pelo menos duas cidades da região: Santa Rita do Sapucaí e São Lourenço. No fim do dia, eram dez os municípios em estado de calamidade pública e sete em situação de emergência. Com estradas bloqueadas, faltou comida e água potável em várias localidades.
Em Santa Rita do Sapucaí, 30 mil dos 40 mil moradores estão desabrigados ou desalojados - 75% da população. Do trevo da cidade até o centro, só era possível ir de barco. A água atinge mais de um metro em prédios públicos e bancos na praça principal e a ameaça invadir também o hospital local. Foi preciso transferir quatro pacientes, de helicóptero, para Pouso Alegre. Entre eles estavam uma grávida de nove meses e um enfartado.
Em São Lourenço, cidade turística do Circuito das águas, até a sede do Corpo de Bombeiros ficou inundada. Um prédio de três andares desmoronou e foi levado pela correnteza. Não havia energia elétrica na maior parte do município. Pelo menos 4 mil pessoas estavam desabrigadas no fim da tarde.
Balanço - De acordo com o balanço divulgado no começo da noite pela Defesa Civil do Estado, nove cidades estavam isoladas, com o acesso pelas estradas bloqueadas. O Rio Sapucaí Mírim transbordou e foi preciso interditar as duas pistas da Rodovia Fernão Dias, no trecho perto de Pouso Alegre. O engarrafamento na estrada chegou a 10 quilômetros de extensão. "Apesar de a chuva ter diminuído, o volume de água na Bacia do Rio Sapucaí aumentou em vez de baixar como esperávamos", explicou o coordenador da Defesa Civil, tenente coronel James Ferreira Santos. "A terra encharcada não deixa a água baixar".
O governador de Minas, Itamar Franco (sem partido), chegou hoje em Pouso Alegre - para onde a sede do governo foi transferida por decreto - e visitou as regiões alagadas. No fim da tarde, o governador estava em Itajubá, uma das mais atingidas
e também ficou ilhado. Não havia teto para o avião levantar vôo. Além do governador, os principais secretários e a direção das Companhia de Energia Elétrica (Cemig) e Companhia de Saneamento Básico (Copasa) ficarão na região até sexta-feira para fazer o levantamento dos prejuízos.
Prejuízos - O balanço do governo é de que a verba liberada pelo presidente Fernando Henrique Cardoso, R$ 5 milhões para Minas, Rio e São Paulo, é insuficiente para a recuperação. As primeiras estimativas são de que será necessário pelo menos R$ 15 milhões para consertar as estradas e outros R$ 5 milhões para recuperar as estações de tratamento de água. Com o caixa no vermelho, o governo mineiro terá dificuldades para bancar a recuperação.
Itamar Franco chegou a sugerir que o governo federal deveria desbloquear os recursos do Estado para que o dinheiro fosse gasto na assistência às vítimas da enchente. Desde a decretação da moratória, mais de R$ 700 milhões foram bloqueados pela União. No entanto, o secretário da Casa Civil, Henrique Hargreves, não acredita em qualquer ajuda por parte do governo federal. "Conheço o outro lado e não tenho esperanças". Campanhas - Durante todo o dia de hoje, as rádios locais divulgaram campanhas para doações. As emissoras também apelavam para que as pessoas não insistissem em ficar em suas casas alagadas. Cestas básicas, colchões e cobertores da Defesa Civil chegaram hoje junto com o governador. Mas só começam a ser distribuídas amanhã. Até hoje, nos alojamentos em escolas públicas e igrejas os desabrigados dependiam das doações da população e do trabalho de voluntários.
O clínico Luciano Jardim foi um dos médicos voluntários que atendeu desabrigados do bairro São Geraldo, em Pouso Alegre. Além de uma criança com pneumonia, o médico constatou casos de diarréia e dor de estômago de fundo emocional. "Não vejo a hora disso tudo passar", desabafou a vendedora Maria Titon, que teve de abandonar a casa onde vivia com os três filhos, um deles com apenas dez meses de vida. Maria só conseguiu salvar a geladeira e o fogão.

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