São Paulo, 12 (AE) - O número de acidentes e de vítimas no trânsito subiu nas rodovias estaduais e federais que cortam o Estado de São Paulo, assim como nas ruas da capital, entre janeiro e abril, em comparação ao mesmo período de 1998. Segundo especialistas, passado o primeiro impacto do novo Código de Trânsito Brasileiro (CTB), que entrou em vigor em 23 de janeiro de 1998, os motoristas "relaxaram". Mas o crescimento também ocorreu porque muito do que determina a legislação ainda não entrou efetivamente em funcionamento.
Conforme estatística da Polícia Rodoviária do Estado, os acidentes em geral subiram de 19.634 no primeiro quadrimestre de 1998, para 23.810 no mesmo período deste ano. O aumento foi de 21,16%. Os acidentes com vítimas nas estradas estaduais cresceram 23,36%. Foram 6.251 no primeiro quadrimestre ante 5.067 no mesmo período de 98.
Os feridos graves passaram de 2.289, entre janeiro e abril do ano passado, para 2.800 este ano, num crescimento de 22 32%. Houve aumento ainda de 24,89% no número de feridos leves. Eles passaram de 6.363 em 1998 para 7.947. O número de mortos também aumentou 7,4% - passou de 729 no primeiro quadrimestre de 1998 para 783 no mesmo período de 1999.
"Os motoristas, num primeiro instante, andaram mais cuidadosos com o novo código, mas começam a ficar desatentos e as estatísticas provam isso", disse o coronel Gerson dos Santos Rezende, comandante da Polícia Rodoviária do Estado de São Paulo.
Mortos - Nas estradas federais que cruzam o Estado, no comparativo do mesmo período, em 1999 houve aumento de 15,8% no número de mortos, de 9% no de feridos e de 2% no de acidentes. A maior gravidade, segundo especialistas, pode estar também ligada ao aumento da velocidade. Após o código, algumas rodovias com velocidade máxima de 80 quilômetros por hora passaram para 110. Na Bandeirantes, ela foi de 100 para 120.
O superintendente da Polícia Rodoviária, Armando Infante Júnior, foi procurado hoje e não retornou as ligações.
No tráfego da cidade, o problema repetiu-se, mas com menor intensidade: acidentes 3% a mais e mortos 2%. O presidente da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET), Nelson Maluf El Hage, argumentou que em janeiro e de fevereiro os resultados foram melhores do que no ano passado. Mas reconheceu que houve uma piora significativa nos meses de março e abril. "Com os dados de maio poderemos traçar um quadro mais definitivo."
Ele observou que, em 1998, houve uma redução de 29,9% no número de mortos e de 11% no número de acidentes em relação ao período de janeiro a abril de 1997. "Aumentou este ano em relação a 1998, mas não chega nem perto do que ocorria antes do código entrar em vigor", explicou El Hage. "Mas o código sozinho não faz nada; é preciso ação efetiva da autoridade de trânsito."
Multas - "Há um ano, no primeiro quadrimestre, houve uma ampla divulgação do novo código, as pessoas ficaram assustadas, achando que ele era para valer", afirmou o diretor do Instituto Nacional de Segurança no Trânsito (INST), Roberto Salvador Scaringela. "Passado um ano, os motoristas perceberam efetivamente só o valor das multas está mais alto."
Para Scaringela, o código não foi colocado em prática nos outros itens. "A inspiração da lei foi a de aumentar a segurança no tráfego e isso se obtém trabalhando fatores de risco, como motorista, veículo e via pública." O diretor ressaltou que o novo sistema de habilitação do motorista não está em funcionamento. "Dirigir embriagado é crime, mas quantos já foram processados por isso?", observou.
Ele lembrou que a inspeção técnica dos veículos ainda não está sendo feita e muitos veículos sem condição de segurança estão rodando livremente. "Pelo código, dinheiro de multa tem de ser aplicado exclusivamente em sinalização, engenharia e fiscalização de trânsito, mas qual é o governo que fez isso este ano?"
Municípios - O diretor-adjunto da Associação Nacional de Transportes Públicos (ANTP), Eduardo Alcântara Vasconcellos, concorda que muito foi colocado em prática do que foi previsto pelo Código de Trânsito Brasileiro. "Falta municipalizar o trânsito, com a criação de órgãos municipais e montagem de esquemas de operação e fiscalização do tráfego local", disse.
Segundo Vasconcellos, a atuação do poder público está aquém do necessário. "O Estado não está cuidando da formação e habilitação do motorista, nem da vistoria de veículos." Conforme ele, para a população o primeiro impacto terminou amenizado. "Após o susto, as pessoas se acomodaram."
Faltaram ainda investimentos em educação de trânsito. Foi determinada a criação de um fundo nacional para isso que receberia 5% do valor recolhido com multas, mas isso nunca ocorreu.

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