Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros arrecada verba para construção de nova sede
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 13 de novembro de 2017
Guilherme Bernardi <br> Reportagem Local 
Desde o início dos anos 2000, o Brasil discute políticas públicas de inclusão e debate como ampliar o número de alunos negros e pobres nas instituições de ensino superior público. O estado pioneiro a implantar cotas para alunos de escola públicas foi o Rio de Janeiro no ano 2000. A reserva de vagas para alunos negros teve pioneirismo na UnB (Universidade de Brasília) em 2004. A UEL (Universidade Estadual de Londrina) não ficou muito atrás. Em 23 de julho de 2004, o Conselho Universitário, instância máxima da universidade, instituiu a reserva de 40% das vagas do vestibular, sendo metade delas para alunos de escola pública e as outras para candidatos que se autodeclararem negros.
As Políticas de Ações Afirmativas, como as cotas, são usadas para garantir direitos historicamente negados a grupos minoritários (não numericamente, mas socialmente) como negros e mulheres. Segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geográfia e Estatística), em 1997 apenas 1,8% dos jovens autodeclarados pretos com idade entre 18 e 24 anos frequentavam ou haviam concluído o ensino superior. Em 2015, eles eram apenas 12,8%. Número ainda pequeno se considerarmos que eles são cerca de 54% da população brasileira.
Uma das lideranças do movimento negro e incentivadora desses debates em Londrina foi Yá Mukumby, ou Dona Vilma, como também era conhecida. Os debates para a implantação do sistema de cotas na UEL aconteceram entre 2002 e 2003 e neste ano o NEAB (Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros) decidiu homenageá-la colocando seu nome na nova sede.
O núcleo foi criado em 1985 pelo professor Eduardo Judas Barros, então com o nome de NEAA (Núcleo de Estudos Afro-Asiáticos) e, nesses 32 anos, mudou de local várias vezes. Ele passou pelo CTU (Centro de Tecnologia e Urbanismo) da universidade, saiu do campus e voltou e, hoje, está em uma sala emprestada do Departamendo de Ciências Sociais, no CLCH (Centro de Letras e Ciências Humanas) da UEL. A nova sede será uma casa de madeira da década de 1930. Ela foi doada para a universidade como forma de preservação da arquitetura daquela época e, em 2014, foi decidido que ela seria repassada ao NEAB, que a reconstruirá no próprio CLCH. Ela ficará em um espaço doado pelo centro próximo ao Calçadão da UEL. Em meio à falta de recursos e funcionários na universidade, ela ainda não pode ser reconstruída.

A atual coordenadora do núcleo é a professora Maria Nilza da Silva, que completa 20 anos de UEL em 2018, e está em sua segunda passagem na coordenadoria do núcleo (entre 2004 e 2006 e, agora, desde 2013). Ela contou que a saída encontrada foi buscar recursos junto à comunidade. Foi lançada a campanha "Ajude a construir a sede do NEAB da UEL" e, para isso, foi feita uma rifa e alguns eventos culturais, mas o principal é um financiamento coletivo, que vai até o dia 21 deste mês. "O objetivo é arrecadar cerca de 30 mil reais para a reconstrução da nova sede", explica a professora.
"O NEAB é importante nas discussões e pesquisa da cultura negra no Brasil", destaca a professora. Ela diz que, apesar do país ser majoritariamente negro, no Paraná eles são apenas 28% e em Londrina, 26%. O núcleo ainda, em parceria com órgãos públicos, promove cursos de formação continuada para professores que não tiveram formação em história e cultura afro-brasileira e africana na graduação.
Neste ano, quando a UEL revisou a política de cotas e acrescentou a reserva de 5% das vagas para candidatos negros de qualquer trajeto (incluído os que passaram pela educação privada), o NEAB promoveu debates e participou dessa discussão. Segundo Maria Nilza, ele é/foi "estratégico para a manutenção, implantação e renovação das Políticas de Ação Afirmativas". Sobre a escolha do nome, ela diz que "nada mais justo. Ela (Yá Mukumby) sempre esteve presente e foi importante nesses debates".
Dos R$ 30 mil que financiamento coletivo tenta arrecadar, até o momento, apenas 4% foi doado - cerca de R$ 1,5 mil.


