Bruxelas (AE-REUTERS) - A cronologia oficial da Otan devota 23 páginas a seus primeiros 44 anos e 62 páginas aos anos 90, a década repleta de ação que abriu com o triunfo na Guerra Fria e fecha com o desafio da transformação. É uma história voltada para o futuro, e um de seus primeiros passos da nova fase está para acontecer. A ascensão formal dos novos estados-membros, a Polônia, a Hungria e República Checa, é o primeiro marco no processo de abertura que alguns historiadores chamam de a mais bem-sucedida aliança de todos os tempos.
"O aumento da Otan é um processo aberto e contínuo, não um evento isolado", diz a cronologia. "A Aliança espera estender mais convites nos próximos anos a nações que estão dispostas e prontas para assumir as responsabilidades e obrigações desta associação".
A vontade é grande: os antigos Estados comunistas na Europa oriental estão batendo nas portas da Otan para pedir um lugar no Conselho do Atlântico Norte, argumentando que a prevaricação os deixará no limbo e enfraquecerá sua estabilidade. A Otan, no entanto, também está se reinventando, pedindo que os candidatos a membros sejam pacientes e prometendo que irá ajudá-los a se preparar para a absorção no futuro. Os aliados admitem que gestos concretos para demonstrar que a "porta aberta" da Otan não está sendo fechada aos poucos são necessários em breve. A Romênia, a Eslovênia, a Eslováquia, a Bulgária e as três repúblicas bálticas estão esperando por sinais positivos.
O principal fator nos anos 90 é que a Otan não foi desativada, declarando vitória sobre o comunismo soviético e levantando sua tenda. A crise de identidade prevista por alguns foi desaparecendo; a aliança permaneceu relevante. A Otan à qual os três antigos membros do Pacto de Varsóvia estão se juntando, no entanto, é uma organização que muda rápido, com a defesa comum ainda estando em sua pauta, mas sem um inimigo para focar suas energias. A manutenção da paz, o acompanhamento de crises além de suas fronteiras e o controle de armas são seus objetivos atuais.
Sete semanas antes da reunião de seu aniversário de 50 anos e de seu virtual relançamento em Washington, os membros ainda debatem alguns elementos de um novo Conceito Estratégico, um documento visando o futuro que irá determinar o papel da Aliança no próximo século. Ao mesmo tempo, a Otan está envolvida com a crise no Kosovo e o desafio dos líderes sérvios na Bósnia e em Belgrado. "Estamos entrando na Otan em condições de combate", brincou o embaixador permanente da Polônia, Andrzej Towpik. Longe dos conflitos, três prédios de escritórios para os novos membros estão quase prontos no quartel-general da Otan em Bruxelas e no dia 16 de março três novas bandeiras serão hasteadas, aumentando a sociedade da Otan para 19 Estados.
Politicamente, a expansão para o leste para abraçar a Polônia, a Hungria e a República Checa era inevitável. Excluí-los seria recriar as linhas divisórias; trazê-los para dentro aumenta a estabilidade e a segurança euro-atlânticas, através do apoio às reformas democráticas, à cooperação e ao apoio mútuo. A preparação para a associação à Otan provou ser um processo muito mais rápido para os três do que os encontros detalhados e os critérios econômicos e sociais necessários para a integração à União Européia, da qual eles esperam se tornar parte nos próximos cinco anos. Na Otan, debates sobre os custos e a capacidade militar dos três foram rapidamente resolvidos através de considerações sobre que países convidar em seguida, e quando.
Os diplomatas da Otan apontaram que a então Alemanha Ocidental se juntou à Aliança sem nenhum exército em 1955, e a Espanha foi rapidamente conduzida porta adentro por razões políticas em 1982, com pouca preocupação com o critério militar. "As requisições militares mínimas para os três foram atendidas", disse o mais alto militar da Otan, general Klaus Naumann, presidente do Comitê Militar, semana passada. No dia 12 de março, os sistemas de defesa aérea dos três aliados do leste serão totalmente conectados com o da Otan. A Aliança será legalmente responsável pela defesa de seus novos membros e eles serão obrigados a oferecer solidariedade militar a seus parceiros - em caso deles sofrerem ameaça externa, o que nas circunstâncias atuais parece improvável.
Devido à sua atual instabilidade, a imprevisível implantação de um processo de transformação e a seu grande arsenal convencional e nuclear, a nova Rússia é uma das principais incertezas que a Otan enfrenta, de acordo com Naumann. Uma cooperação mais profunda com Moscou e um melhor controle de armas, mas também mantendo sua capacidade de autodefesa, estão entre as maiores tarefas desta década que termina, agora complicadas pela oposição da Rússia a uma maior expansão da Otan para o leste.
Como contribuintes da missão para manter a paz na Bósnia chamada SFOR, os três novos aliados já são parceiros ativos no papel dos anos 90 da Otan de projetar estabilidade e administrar crises em sua periferia. Kosovo é seu próximo provável destino. Eles também deverão ajudar a conter a crescente ameaça das armas de destruição em massa e sua proliferação, e lidar com o que Naumann chama de "riscos emergentes" do terrorismo, crimes trasnacionais, competição por fontes escassas como a água e as migrações em massa. A Aliança será cada vez mais chamada para prover um "socorro inicial" que vai além da variedade puramente militar, com os membros oferecendo seus especialistas particulares para resolverem os problemas usando a inteligência. Nas palavras do general Naumann: "Nenhuma nação, nem mesmo a única que permanece super-poderosa no mundo, os Estados Unidos, podem sonhar em efetivamente enfrentar todos os outros".

mockup