Novos donos da Light perdem por apostar na paridade cambial
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terça-feira, 09 de fevereiro de 1999
Por Reali Júnior 
Paris, 09 (AE) - Empresas que apostaram na paridade entre o real e o dólar já começam a pagar um preço alto por causa da desvalorização da moeda brasileira. Uma delas, a francesa Electricité de France (EDF), que adquiriu a Light no Rio de Janeiro e a Eletropaulo Metropolitana em São Paulo, não esconde um certo desapontamento.
"Nós acreditamos no discurso do governo", reconheceu Michel Gaillard, presidente da Light, controlada em grande parte pela EDF da França, em entrevista ao caderno econômico do matutino francês "Le Figaro". Ele está convencido de que a opção vai custar caro, pois, tendo apostado no real forte, a empresa não adotou nenhuma medida de proteção.
O presidente da Light revelou que a empresa contraiu uma dívida de US$ 2 bilhões para adquirir a Metropolitana. "Preferimos tomar emprestada uma parte no mercado internacional para escapar das fortes taxas de juros brasileiras e optamos também por não proteger esses empréstimos, pois isso tornaria a operação ainda mais cara", explicou.
Furnas - A EDF também estava interessada em participar da privatização de Furnas, mas agora mantêm silêncio sobre seus planos, pois seu interesse foi manifestado antes de o governador Itamar Franco ter acelerado o processo da crise brasileira decretando uma moratória unilateral em Minas Gerais, o que pode ter alterado os planos da Light.
Hoje, Michel Gaillard reconhece que o grupo assumiu "grandes riscos", mesmo porque as ações da Light já perderam 30% do valor na Bolsa de Valores de São Paulo em apenas alguns meses. Os operadores, neste momento, examinam o passivo das empresas e as mais endividadas serão prejudicadas, principalmente as que tem dívidas em dólar e receitas em real, caso da Light.
No médio prazo, a Light deve pagar um empréstimo de US$ 875 milhões, um empréstimo-ponte com quatro grandes bancos, o Deustche Bank, Merrill Lynch, Citybank e Societé Générale. Posteriormente, esse empréstimo foi repassado a centenas de outros estabelecimentos bancários.
BNDES - Agora, a Light está renegociando com os bancos brasileiros um refinanciamento para esse empréstimo e para um crédito comercial de US$ 160 milhões. Além disso, ela está a espera de uma ajuda do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), que já lhe emprestou R$ 1 bilhão por cinco anos, indexados a uma cesta de moedas, metade da qual em dólares. Nessa perspectiva de tempos mais difíceis, a direção da Light decidiu apertar os cintos e todas as despesas não essenciais estão sendo cortadas.
A Light não espera, porém, uma queda de receita e aposta num crescimento da demanda de 8%. Nos nove primeiros meses do ano passado, a empresa faturou US$ 1,5 bilhão. Mesmo reconhecendo que a situação atual não é nada fácil, a direção da Light parece convencida que, no longo prazo, seu investimento brasileiro continua interessante.
Japonesas - Algumas empresas japonesas estão na mesma situação. Elas confiaram nas promessas do governo brasileiro em relação ao real forte e deixaram de cobrir devidamente suas posições de câmbio no Brasil.
Nessa situação encontram-se, principalmente, empresas japonesas que importam componentes do Japão.
Esse país também contribuiu com US$ 1,25 bilhão no pacote de ajuda do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do grupo dos dez países mais desenvolvidos (G-10) ao Brasil, num total de US$ 41,5 bilhões.
O Japão acreditou que tal dispositivo financeiro seria suficiente para evitar uma crise maior no Brasil, mas, infelizmente, a realidade foi outra, segundo revelou Noboru Hatakeyama, presidente do organismo que supervisona o comércio exterior japonês.


