São Paulo, 14 (AE) - Com as eleições de 1998, uma nova leva de deputados estaduais paulistas, 94 ao todo, assumem seus mandatos na Assembléia amanhã. Nova legislatura, mas nenhuma perspectiva de mudanças concretas. O governo do Estado, comandado por Mário Covas, do PSDB, continuará a ter maioria certa na Casa. "A maior parte dos parlamentares não tem vocação para oposição", conta um deputado reeleito da base governista. "Eles preferem estar próximos do governo, seja ele qual for, porque dessa forma têm condições de contentar sua base eleitoral."
A renovação na Assembléia foi recorde na eleição do ano passado: 52 deputados estão ocupando uma cadeira na Casa pela primeira vez ou voltando ao posto depois de um período sem mandato. A mudança de nomes chegou a 55%, superando a da eleição passada, que foi de 54%.
Entre os novatos, o foco das atenções é Hanna Gharib (PPB). Como vereador, viu-se atolado em denúncias de participação em esquema de corrupção de fiscais das administrações regionais. Gharib passa a ter imunidade parlamentar ao ingressar na Assembléia, mas poderá ter o mandato cassado. A dor de cabeça, até agora nos limites da Câmara Municipal de São Paulo, passa para o Legislativo estadual.
Preocupados com a repercussão negativa da vinda de Gharib para a Assembléia, deputados do PSDB e de outros partidos já estão tomando iniciativas de investigação do escândalo. A tentativa é não deixar que a Casa seja atingida por acusações de omissão, como ocorreu na Câmara Municipal.
Campeão de votos no Legislativo estadual, o deputado Waldemar Alves Faria Júnior, do PMDB, promete ser um dos destaques entre os novatos. Eleito com 170.325 votos, quase 100 mil a mais que o segundo colocado de seu partido, Faria Júnior inicia a vida parlamentar já com um arranhão em seu currículo: foi investigado por um deputado estadual de seu próprio partido.
O peemedebista não-reeleito José Carlos Tonin, presidente da CPI que investigou o esquema dos sorteios 0900, concluiu que a empresa de Faria Júnior, a ABBA Produções e Participações, lucrou, somente em 1997, R$ 94 milhões com o sorteio de prêmios. O deputado é o diretor-responsável da empresa que administrava esse tipo de jogo na TV Record. Os sorteios foram suspensos pela Justiça Federal. A CPI foi criada após a denúncia de que as emissoras utilizavam entidades filantrópicas como fachada para faturar com os sorteios. Com 31 anos, Faria Júnior é evangélico ligado à Igreja Universal do Reino de Deus, mas nunca foi pastor.
Outra novidade nos quadros da Casa é o ex-prefeito de Presidente Prudente Agripino Lima, eleito pelo PFL. Excêntrico e poderoso, antes de candidatar-se ao Legislativo Agripino tentou galgar o posto de governador do Estado. Para isso, contam seus colegas de partido, usou de um recurso que tem de sobra: dinheiro. Empresário milionário, pôs seus aviões à disposição dos delegados do partido - a quem concedia tratamento especial, com direito a jantares e regalias. Conseguiu convencer boa parte dos eleitores, mas o PFL acabou escolhendo Maluf nas eleições.
Dono da Universidade do Oeste Paulista, a Unioeste, da qual é reitor, Agripino também é fazendeiro, dono de jornal e de muitas propriedades na cidade. Não esconde a infância pobre - é ex-carroceiro - e a penca de processos que carrega na Justiça. Só no Tribunal de Justiça de São Paulo são 31 processos criminais. Todos, segundo ele, por calúnia e difamação. "Comigo é bateu, levou, por isso sou muito processado", defende-se.
Figura folclórica, o recém-eleito deputado Turco Loco, do PSDB, deve continuar na Assembléia com seu marketing político em torno dos jovens e dos esportes radicais. Como vereador, apresentou propostas inusitadas como a criação da escola do surfe em São Paulo, em que os alunos teriam aulas teóricas sobre o tema e aulas práticas, no litoral. No rol de projetos importantes, estão também a criação do dia do skate, do surfe e do rock.
Alguns parentes de personalidades conhecidas também tiveram vez na última eleição. Edir Sales, eleita pelo PL, é irmã do conselheiro do Tribunal de Contas do Município (TCM) Eurípedes Sales. Durante a campanha, fez dobradinha com o vereador Zé Índio, do PPB. Filho do radialista Eli Côrrea e também radialista, Adriano Eli Corrêa (PFL) usou o sobrenome e conseguiu quase 60 mil votos. Com 23 anos, é o parlamentar mais jovem da Casa. Jorge Luís Caruso, do PMDB, também é filho de um conselheiro do TCM, Antônio Carlos Caruso.
Partidos nanicos também foram contemplados. Graças ao médico Enéas Carneiro, puxador de votos do Prona, o partido elegeu três representantes. O PV e o PRP elegeram um deputado cada um. A bancada feminina da Assembléia diminuiu consideravelmente para a nova legislatura. Foram eleitas 8 mulheres, enquanto no mandato passado eram 11.
Antigos - Mas a maioria das chamadas "raposas velhas" da Assembléia continuam com os lugares cativos na Casa. Constam da lista dos veteranos nomes como os dos deputados Nabi Abi Chedid (PSD), que vai exercer o décimo mandato consecutivo, Arthur Alves Pinto (PL), no sexto, e os deputados Lobbe Neto (PMDB), Vitor Sapienza (PMDB), Edson Ferrarini (PL), Afanásio Jazadji (PFL) e Conte Lopes (PPB), que vão emplacar o quarto mandato consecutivo. São parlamentares que, pelo tempo acumulado na Casa, detêm grande poder e influenciam os demais colegas. Outro político vetereno está de volta aos quadros da Assembléia. É Antônio Salim Curiati, do PPB, em seu sexto mandato como deputado estadual.
Apenas dois veteranos não conseguiram reeleger-se. O deputado Erasmo Dias, do PPB, que exerceu o cargo por 12 anos, não conseguiu votos suficientes na última eleição. Da mesma forma, Sylvio Martini (PL), teve votação apenas para ocupar o posto de primeiro suplente - e pode voltar a ocupar a vaga na Assembléia como ocorreu na legislatura passada.
Os membros da "bancada da segurança" continuam a ser os mais prestigiados em termos de votos. O capitão Conte Lopes (PPB), que se orgulha de ter matado "mais de 150 bandidos", obteve 148.188 votos. Logo atrás dele está o coronel da reserva Edson Ferrarini (PL), que ganhou notoriedade no comando das Rondas Ostensivas Tobias Aguiar (Rota): conseguiu 144.188 votos. Afanásio Jazadji, que também integra a bancada, obteve número menor de votos este ano: 68.243. Sua popularidade não está das melhores, para quem já obteve um número recorde de votos - mais de 500 mil.

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