Rio - Blecautes como o que ocorreu anteontem poderão se repetir com mais frequência nas regiões Sudeste, Sul e Centro-Oeste, devido à deficiência no sistema de proteção da malha de transmissão de energia. Especialistas ouvidos pela Agência Estado afirmam que esta foi a principal causa dos apagões que deixaram milhares de cidades às escuras em abril de 1997, março de 1999 e ontem. ‘‘Nem o rompimento de um cabo nem a queda de um raio poderiam, de maneira nenhuma, provocar um blecaute em dez Estados’’, diz Cláudio Ferreira, especialista em energia e ex-assessor da diretoria da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel).
A constatação de que a pane desta semana, fora do horário de pico, foi causada pelo rompimento de um cabo em uma rede secundária do sistema, com voltagem relativamente baixa em relação às demais, demonstra que ‘‘o Brasil está em situação de perigo muito grande’’, na avaliação de Adriano Pires, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro e um dos responsáveis pela elaboração do programa de racionamento adotado pelo governo. ‘‘A Aneel deveria exigir do Operador Nacional do Sistema (ONS) um relatório sobre as condições das linhas de transmissão. Atualmente, isso é uma caixa preta semelhante à que foi a situação crítica da geração no início do ano passado.’’
Três reuniões realizadas na sede do ONS envolveram ontem técnicos do órgão, representantes da área operacional das empresas de toda a região atingida pela pane e técnicos ligados ao sistema de proteção da rede.
O sistema de proteção é como uma trava de segurança, que bloqueia a dispersão dos efeitos de uma pane para todo o sistema. ‘‘O sistema está velho. Não recebe investimentos há muitos anos e expõe todo o País a um dano que poderia ser localizado’’, diz Pires. O foco no aumento da oferta de energia e a impossibilidade de investimentos das estatais – controladoras da maior parte da rede de distribuição – são apontados como fatores que contribuíram para a deterioração do sistema de segurança da rede. ‘‘As estatais não puderam acompanhar o ritmo de investimentos das distribuidoras privadas e seus equipamentos estão defasados’’, avalia o secretário de Energia, Indústria Naval e Petróleo do Estado do Rio, Wagner Victer. As empresas privadas estariam investindo em relés digitais, ao passo que as estatais usam versões analógicas. ‘‘As duas versões não se comunicam direito, o que pode provocar problemas’’, explica.
O setor elétrico, porém, não vem tomando o mesmo cuidado. Depois do acidente em Bauru que provocou o blecaute de 1999, uma série de recomendações foram feitas às empresas do setor para aumentar a segurança do sistema. ‘‘Não acredito que as medidas tenham sido tomadas’’, diz. A própria Aneel já sabia do problema e decidiu fazer uma inspeção em toda a rede de transmissão de energia brasileira, para identificar os pontos mais críticos e as medidas necessárias para aumentar a confiabilidade.
O blecaute de anteontem mostrou que a vulnerabilidade do sistema elétrico brasileiro está ligada não só à falta de investimentos na expansão de unidades geradoras e redes de transmissão, mas também à manutenção e proteção.
Ontem, a Eletrobrás anunciou a captação de US$ 110 milhões no exterior. Segundo nota distribuída pela empresa, ‘‘os recursos serão utilizados para investimentos em geração, transmissão e para fins corporativos para fazer frente ao Programa Emergencial do governo federal’’.

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