Novo tratamento usa toxina do botulismo para controlar excesso de suor
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quinta-feira, 02 de dezembro de 1999
Por Rebecca Cook, da AP 
Bellevue, EUA (AE-AP) - Uma toxina mortal mudou a vida de Tim Smith - para melhor. Smith transpira em excesso, um problema causado por uma disfunção pouco conhecida chamada hiperhidrose. Enquanto a maioria das pessoas se encontra seca e confortável, ele encharca cerca de três camisas por dia. "É simplesmente muito desagradável", diz Smith.
Mas a vida de Smith mudou cerca de um ano atrás, depois que um médico amigo sugeriu que ele tentasse uma injeção de Botox. Esta é a toxina do botulismo, a mesma substância paralisante que provoca envenenamento na comida e é parte do arsenal biológico de guerra. Os médicos usaram isso em doses pequenas para tensões musculares graves, pequenas rugas na testa e agora para controlar o excesso de suor.
Smith foi a primeira pessoa no estado de Washington a fazer o tratamento, mas ele não se deteve pela natureza experimental das injeções. Como a maioria das pessoas que sofre com o problema, ele estava desesperado por uma cura. "A alternativa é viver com o problema, se sentindo nojento o tempo todo", disse Smith. O Dr. Ib Odderson injetou uma pequena quantidade de Botox em ambas as axilas de Smith. "Na tarde seguinte, ele me telefonou e disse acho que está funcionando", disse Odderson, que atende no Centro Médico Hospitalar Overlake, em Bellevue. "Quatro dias mais tarde ele ligou e disse eu não troquei minha camisa hoje". Agora Smith é um defensor do Botox, e Odderson está conduzindo um estudo controlado com a utilização de placebo sobre o tratamento. "É incrível", afirma Smith sobre o tratamento. "Você basicamente se junta ao resto do mundo". Por muito tempo, não havia esperança para pessoas como Smith. O Dr. Odderson estima que cerca de 5% da população tem hiperhidrose. Mas esta estimativa pode ser baixa, ele diz - porque muitas pessoas que suam em excesso têm vergonha de procurar tratamento.
As opções para estas pessoas são limitadas. Fortes cremes funcionam para alguns mas irritam ou não fazem nada por outros. Há um procedimento cirúrgico para cortar os nervos que controlam o suor debaixo do braço, mas é um método invasivo e pode provocar o aumento do suor no resto do corpo. Smith, como outros que sofrem com o problema, fizeram sacrifícios. Um cabeleireiro, por exemplo, deixou de fazer vários trabalhos lucrativos em feiras especializadas porque sabia que seu problema iria lhe causar embaraço em frente a uma multidão. Ele tentou quase tudo: desodorantes, um aparelho elétrico que supostamente daria choques em suas glândulas sudoríparas até que elas deixassem de funcionar, e até mesmo lenços de papel debaixo dos braços.
Os médicos não sabem o que causa a hiperhidrose, apesar de alguns pensarem que é de certo modo genética. A disfunção afeta pessoas de forma diferente: alguns suam debaixo dos braços, outros nas mãos e outros na testa. Mas todos compartilham do estigma social e da esperança por uma cura. A toxina do botulismo, o veneno mais mortal do mundo, é um estranho salvador. Mas no final dos anos 60, pesquisadores começaram a estudar seu poder paralisador para curar disfunções neurológicas. Eles descobriram que, em pequenas quantidades, a substância pode ser usada para controlar espasmos musculares paralisando os nervos que causaram a contração do músculo. Por um capricho do destino biológico, o agente químico que causa alguns espasmos musculares - a aceticolina - é o mesmo neurotransmissor envolvido na transpiração. Quando os médicos injetam o botulinum, que é manufaturado sob o nome de Botox, em um paciente com hiperhidrose, a substância impede que a acetilcolina chegue às glândulas sudoríparas.
Uma ou duas injeções em cada axila param o suor por cerca de cinco meses, apesar de alguns efeitos terem durado cerca de um ano. O único efeito colateral notado até agora é certa fraqueza nas mãos quando o Botox é injetado diretamente nas palmas. No entanto, é "relativamente livre de riscos", diz o Dr. Richard Glogau, um dermatologista de São Francisco que tratou cerca de 300 pacientes de hiperhidrose com Botox. Ele ajudou a divulgar o tratamento nos Estados Unidos. Ele e Odderson publicaram estudos no jornal Dermatologic Surgery. O Dr. Odderson e outros pelo país estão conduzindo estudos com o Botox para a Allergan, a companhia que produz a substância. A Allergan deu início a pesquisas clínicas da droga na Europa, e a companhia com sede em Irvine, na Califórnia, está conversando com a FDA sobre possíveis testes clínicos domésticos. A Allergan também está estudando o Botox como um possível tratamento para paralisia cerebral, espasmos causados por derrames, dores nas costas e enxaquecas. Se os testes com a hiperhidrose tiverem sucesso, o Botox pode se tornar uma opção concreta de tratamento para pessoas que transpiram demais. A única coisa ruim é o preço - entre US$ 400 e US$ 1.000 por um tratamento que dura não mais que um ano. Mas para os pacientes que procuram médicos como Odderson e Glogau, o preço vale.


