Novo sindicalismo vai disputar prefeituras do ABC
PUBLICAÇÃO
sábado, 22 de abril de 2000
Por Vera Rosa 
São Paulo, 23 (AE) - Vinte anos depois da greve dos metalúrgicos de São Bernardo do Campo, que agitou o País e desafiou o regime militar durante 41 dias - de abril a maio de 1980 -, protagonistas do movimento batizado de "novo sindicalismo" vão disputar as eleições para as prefeituras do ABC paulista, em outubro, por partidos diferentes. Atuais adversários, todos foram fundadores do PT, que também completou duas décadas.
Dois deles já são prefeitos e candidatos à reeleição: Maurício Soares, de São Bernardo, e Gilson Menezes, de Diadema. Além de terem deixado as fileiras petistas e acompanhado de perto as históricas greves que marcaram a transição política, eles apresentam outro ponto em comum. Estão na segunda gestão à frente das respectivas prefeituras.
Ex-ferramenteiro da fábrica de caminhões Saab-Scania, Menezes carrega no currículo o fato de ter sido o primeiro prefeito eleito pelo PT no País, em 1982. Saiu da legenda seis anos depois, filiou-se ao PSB de Miguel Arraes, mas não deixou Diadema. Na cidade vizinha, Maurício Soares, ex-advogado do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, assumiu a prefeitura de São Bernardo pela primeira vez quando ainda era do PT, em 1989. Passou pelo ninho tucano e hoje está no PPS, partido do ex-ministro Ciro Gomes.
O time do PT também tem seus postulantes no meio sindical. De olho na cadeira ocupada por Soares, o presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Vicente Paulo da Silva, é o candidato petista no berço do PT. Em São Caetano do Sul, onde o PT nunca conseguiu eleger um governante, o concorrente da sigla será o deputado federal Jair Meneguelli (ex-CUT).
Nesse xadrez eleitoral, todos foram companheiros de ABC na ruidosa temporada de paralisações dos anos 70 e início dos 80. Soares, por exemplo, não era líder sindical, mas, na função de advogado trabalhista, foi personagem de destaque no movimento. Cansou de levar o então presidente do sindicato dos metalúrgicos
Luiz Inácio Lula da Silva, ao prédio do antigo Departamento de Ordem Política e Social (Dops), em São Paulo. Comprou muitas brigas. Quando a greve de 1980 terminou, Lula ainda estava preso.
"Naquela época, a gente não tinha uma formação política de organização", conta Lula, hoje presidente de honra do PT. "Os advogados do sindicato viviam querendo que eu aprendesse a Lei de Greve e a Lei de Imprensa, e eu dizia que não queria porque, se aprendesse, ia começar a me probir de fazer as coisas", lembra. Para piorar a situação, Lula não levava a sério as orientações de seu amigo Soares nem de Almir Pazzianotto, que também era advogado do sindicato e hoje é ministro do Tribunal Superior do Trabalho (TST). "Para que serve o advogado se não é para libertar a gente?", resmungava.
Coisa de elite - Novos tempos, outras idéias. Em 1993, um ano depois de terminar seu primeiro mandato, o prefeito de São Bernardo deixou de vez o PT que ajudou a fundar. Na prática, ele já havia pedido desligamento antes, pois teve sérios atritos com o partido durante sua gestão. Lula o convencera a voltar, mas o rompimento de 93 foi definitivo. "Houve muita intromissão do PT no governo", alegou Soares, na ocasião. "O PT age como dono da verdade." Na eleição de 1996, o advogado ganhou novamente a prefeitura, desta vez pelo PSDB. Mudou para o PPS no ano passado.
Operário da Mercedes-Benz no fim dos anos 70, Vicentinho é hoje o principal adversário do prefeito Soares. Potiguar, chegou a São Paulo em 1976 e integrava a comissão de mobilização dos metalúrgicos quando estourou a greve de 1980.
Nos primeiros meses de Mercedes, achava que assembléia era para políticos, uma coisa de elite. "Assembléia, na minha cabeça, era a legislativa", recorda. "Me chamavam e eu não ia, mas, no dia em que resolvi participar, comprei uma camisa e uma calça comprida e levei um susto quando vi todo mundo de macacão."
Vicentinho não esconde que aprendeu o que sabe na prática. "O movimento liderado pelo Lula foi uma grande escola para mim", garante. Antes de presidir a CUT, ele também passou pelo revezamento de poder, no comando do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC. Foi cassado em 1983, com Jair Meneguelli que, na época, era o presidente do sindicato. Preocupado com a notícia que sua mãe veria na TV em Acari (RN), ligou para ela. Mulher simples, dona Maria Jerônimo ficou assustada. "Vou rezar por você, meu filho, porque esse general Figueiredo não passa de um comunista", disse a mãe.
1.º de Maio - Nas pesquisas de intenção de voto, Maurício Soares está bem na frente de Vicentinho. Mas o presidente da CUT jura que chega lá. "Ajudei muito na formação de todo esse pessoal: do Lula, do Djalma Bom (ex-vice-prefeito de São Bernardo) e, mais recentemente, do Meneguelli e do Vicentinho", afirma o prefeito. "Acho uma pena que as bandeiras da CUT virem programa no PT."
É possível que Vicentinho e Soares, hoje rivais, encontrem-se na próxima segunda-feira, durante a comemoração dos 20 anos do 1.º de Maio de 1980. Naquele ano, com a greve dos metalúrgicos completando 30 dias, uma passeata com cerca de 120 mil pessoas saiu da Praça da Igreja Matriz de São Bernardo até o Estádio de Vila Euclides, liberado na última hora para a concentração. Agora, nesse 1.º de Maio, a CUT quer promover uma caminhada com o mesmo percurso. O compositor Chico Buarque, que apoiou o movimento em 1980, foi convidado.
"Eu não vou porque sempre fazemos um ato nesse dia em nossa cidade", justifica o prefeito de Diadema, Gilson Menezes, hoje no PSB. Baiano, foi ele o metalúrgico que liderou a greve da Scania, em 1978, como diretor do sindicato, e as outras que se seguiram até 1980. Depois disso, ficou na "lista negra" de todas as empresas do ABC. "O novo sindicalismo era de muita paixão", resume. "Se fôssemos pensar no perigo que existia, não faríamos nada."
Trator - Menezes deixou o PT há 12 anos, entrou no PSB, porém não se considera um anti-petista. "Respeito o partido, mas não gostei do trator que passaram em cima de mim", diz. Em 1988, sua saída do PT foi tumultuada. Inconformado com o aval dado por sindicalistas metalúrgicos à candidatura do médico José Augusto Ramos, que acabou sendo prefeito de Diadema, Menezes brigou até com Lula. "O tempo provou que eu estava certo porque José Augusto foi expulso do PT", comemora.
Como se vê, a disputa eleitoral em Diadema promete esquentar. O embate envolve dois ex-petistas (Menezes e José Augusto, hoje no PPS) e um petista (José de Filippi Júnior). Todos já foram prefeitos do município, dois são deputados estaduais (José Augusto e Filippi), mas é Menezes que continua no cargo.
Em São Caetano do Sul, ao contrário, a esquerda nunca chegou ao poder. Na cidade atualmente administrada por Luiz Tortorello, do PTB, o deputado e ex-ferramenteiro da Ford Jair Meneguelli (PT) é a zebra da eleição. Também era em 1978, quando lia Tio Patinhas e resolveu se sindicalizar somente para pagar metade do valor do curso de madureza. Resultado: virou presidente do sindicato dos metalúrgicos de São Bernardo, em 1981, comandou a CUT por dez anos e foi enquadrado na Lei de Segurança Nacional. "Fazíamos política sem saber que estávamos fazendo política", conclui Meneguelli.


