Novo século significa novas estratégias para pioneiro global dos sapatos
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quarta-feira, 05 de abril de 2000
Por tom Cohen 
Batawa, Canadá (AE-AP) - Frank Rabel gentilmente toca com os dedos uma fotografia de seis décadas de idade e a observa atentamente em meio às sombras do final da tarde, lembrando-se da energia e da promessa do agradável dia de verão em que ela foi tirada.
A fotografia em branco e preto mostra Rabel e dez outras pessoas ajoelhadas na grama após chegarem do seu país de origem, a então Checoslováquia. Eles eram alguns dos pioneiros da Bata, mais de cem imigrantes trazidos pela produtora de sapatos Bata Shoe Co., um império familiar global criado muito antes de qualquer um falar em "globalização", depois que os nazistas invadiram sua terra natal em 1938.
No Canadá, os pioneiros construíram uma companhia denominada Batawa, com pequenas casas brancas, uma escola, uma igreja, um posto de bombeiros e a marca registrada que era a fábrica de cinco andares conhecida onde quer que a Bata fabricasse sapatos.
Lá, eles criaram máquinas de corte para produzir sapatos melhores, mais rápido com custo menor, ajudando a expansão das propriedades e a Bata a se tornar a gigante industrial que hoje emprega 52 mil pessoas em 69 países e vende 250 milhões de pares de sapato por ano.
Mas, com a evolução da economia global, a Bata fechou a fábrica Batawa na última sexta-feira como parte de sua estratégia global para melhorar a eficiência, cortar custos ao aproveitar a vantagem dos salários mais baixos em outras partes, além de usar seus bens de forma mais eficiente.
A Bata está mudando sua estrutura tradicional para transformar as operações de cada país em sistemas mais centralizados ou regionalizados, diz Jim Pantelidis, chefe executivo da empresa.
Por exemplo, explica ele, a fábrica na áfrica que já produziu todas as linhas de sapatos vendidos naquele continente deve agora concentrar-se apenas em uma linha vendida em toda a região.
"Isso cria mais prática, mais tipos de trabalho repetitivo e
em consequência, um custo muito menor", diz Pantelidis.
A modernização é inevitável se a Bata quer adaptar-se às condições de mudança no mercado global de sapatos que ela ajudou a criar, diz ele.
"Houve estagnação durante alguns anos. Há certamente a necessidade por renascimento", afirma Pantelidis, um ex-executivo do setor petrolífero que veio para a Bata apenas um ano atrás. "Nós temos uma base forte a partir da qual nós promovemos este renascimento, e esta é, basicamente, a função para a qual eu fui contratado".
Para Rabel, agora um homem fraco e de cabelos brancos de 83 anos, a morte da antes próspera fábrica que ele ajudou a construir é uma inevitável concessão á mudanças dos tempos .
"É uma decepção, já que você constrói algo e espera que isso prospere", diz ele. "Mas isso é, eu suponho, parte da vida".
Rabel e os outros pioneiros foram chamados para virem ao Canadá por pelo filho de Thomas J. Bata, que mudou-se para Ontário em abril de 1939 e comprou os 640 hectares de terra que abrigaram a Batawa na floresta ao longo do rio Trent no sul de Ontário, a 145 quilômetros ao oeste de Toronto.
Nos melhores tempos, 2.500 pessoas trabalharam na fábrica da Batawa, fazendo sapatos e criando e testando novos conceitos e inovações. Os engenheiros da Bata inventaram o processo de molde de injeção, um método que anexa a parte superior à sola largamente usado hoje em dia.
No final dos anos 90, os sapatos importados já haviam abocanhado 91% do mercado canadense, apesar dos impostos de importação de 20% ou mais sobre calçados produzidos no exterior e a fábrica Batawa não era capaz de competir, explica o porta-voz da companhia, Graeme Spicer.
A produção caiu para menos de um milhão de pares por ano de um pico de 4,6 milhões em 1978 e a fábrica perdeu mais de US$ 20 milhões na última década, disse Spicer.
"Nós continuamos a mantê-la por causa da intensa esperança do senhor Bata de que nós seríamos capazes de voltar aos bons tempos", diz ele. "Havia algo de real nisso? Eu não sei".
Alguns trabalhadores mostraram-se preocupados com o empenho, mas nenhum menosprezou a companhia.
Roy Radway, um gerente que trata os assuntos de maneira franca aos 31 anos de trabalho com os Bata, notou que o custo dos materiais era praticamente o mesmo em todo o lugar, mas o custo da força de trabalho são maiores no Canadá se comparados com a China, Indonésia e outros países em desenvolvimento.
"É o custo do trabalho que nos dá prejuízo", diz ele. "Chegou a um ponto em que é muito duro. É muito difícil fabricar na América do Norte, com todas as regras e regulações dos sindicatos".
Rabel, que continua a viver poucas milhas do local, relembra o entusiasmo dos empregados da fábrica. "Nós tínhamos pessoas vindo e pedindo prorrogações (para continuar a trabalhar) quando já tinham 65 anos", conta ele.
Olhando para a fotografia do dia em que ele seus dez compatriotas chegaram, ele acrescenta baixinho: "Todos eles já se foram. Eu sou o único que ficou".


