Montevidéu, 29 (AE) - Se pudesse fazer um pedido ao presidente Fernando Henrique Cardoso, o presidente eleito do Uruguai, Jorge Batlle, que assume amanhã a presidência, não titubearia: "Que não haja mais desvalorizações (do real)", afirmou em entrevista a jornalistas brasileiros. A menos de 24 horas da solenidade de posse, Batlle almoçou hoje em um restaurante de Montevidéu acompanhado apenas do secretário particular e de um amigo pessoal, livre do assédio da imprensa uruguaia e da segurança.
"Seguranças, para quê? Olha a força dos guarda costas", brincou o presidente eleito, referindo-se ao amigo, José Villar, e ao secretário, Marcelo Graniero. Bastante descontraído, Batlle respondeu com humor e ironia as perguntas feitas por jornalistas brasileiros. Ele explicou que seu temor de nova desvalorização do real está relacionado aos efeitos negativos que a mudança ocorrida em janeiro do ano passado causou à economia uruguaia. "Nosso turismo foi afetado, a exportação de carne e leite caiu muito", disse.
Pertencente a uma família tradicional de políticos uruguaios - o avô e o pai já foram presidentes do país - Batlle assume o cargo afirmando que a recuperação do Mercosul é "mais do que possível: é imprescindível". "Mas esse não é um problema nosso
é do Brasil e da Argentina; terão de resolver como é possível garantir o bloco com um tendo o câmbio fixo e o outro o câmbio móvel", ponderou.
Depois de definir Fernando Henrique como "um grande intelectual", Batlle voltou a insistir que o Brasil precisa assumir sua "responsabilidade fiscal" para que o Mercosul possa seguir adiante. Ressaltou ainda que a desvalorização do real, em janeiro de 1999, "foi um golpe de realidade" no bloco. Ele assume hoje o governo uruguaio e segundo pesquisas feitas por jornais locais, a expectativa dos uruguaios é de que fará um governo melhor que seu antecessor, Julio Maria Sanguinetti.
Cumprimentado de forma muito discreta por alguns uruguaios que almoçavam no tradicional e modesto restaurante Danúbio Azul, Battle em nenhum momento demonstrou nervosismo ou ansiedade com a posse como o presidente da República, que só ganhou depois de disputar cinco vezes o cargo. "É normal: amanhã eu vou lá, com a mulher (Mercedez), canto o hino nacional, vejo o desfile, assino a ata", desdenhou. "Depois que acabar tudo, vou de táxi para a casa de minha mãe, Matilde, de 94 anos, para cumprir a promessa que fiz a ela durante a campanha", contou.
Batlle obteve 58% dos votos dos 2,4 milhões de eleitores uruguaios enquanto o candidato da oposição, Tabaré Vasquez, ficou com 42%. O forte da economia uruguaia se baseia na agroindústria e a inflação anual varia entre 4,5% a 5%. Segundo o novo presidente, o salário mínimo uruguaio ultrapassa os US$ 100, mas ninguém no país recebe apenas esse valor.
O presidente uruguaio demonstrou conhecimento dos problemas enfrentados pelo colega brasileiro em relação ao mínimo. "Eu sei que o (senador Antonio Carlos) Magalhães quer um mínimo de US$ 100, mas no Brasil, o mínimo está atrelado às pensões (aposentadorias)", disse, acrescentando: "isso não acontece aqui no Uruguai, onde já foi feita uma reforma no sistema previdenciário".