Novo presidente do Paraguai abre governo à oposição
Assunção, 29 (AE-IPS) - O novo presidente do Paraguai, o advogado Luis González Macchi, 51 anos, deixou hoje as portas de seu governo abertas para representantes da oposição. Ele declarou que se os partidos opositores - Liberal Radical Autêntico (PLRA) e Encontro Nacional (PEN) - desejarem, podem fazer parte de seu gabinete.
Enquanto isso, a Justiça Eleitoral decide a convocação de novas eleições no país. Macchi pode permanecer no poder até 2003
para completar o mandato do presidente Raúl Cubas, 55 anos, que renunciou domingo. Muitos juristas, contudo, acham que é preciso respeitar a Constituição que prevê, para situações assim, a convocação de eleições.
Em nota, as Forças Armadas garantiram apoio ao novo governo e a continuidade do regime constitucional. Macchi representa o Partido Colorado, no poder desde 1947. González Macchi é ligado à corrente interna colorada do vice-presidente Luis María Argaña
assassinado terça-feira passada.
As primeiras palavras de Macchi como novo presidente foram: "O povo paraguaio triunfou". Em seu discurso de posse, ele também disse acreditar em uma integração "justa e generosa com os países da região", numa referência ao Mercosul.
Há informações, até agora não confirmadas, que o novo governo pode ser integrado por quatro representantes do Partido Colorado
quatro do PLRA e três do PEN. O novo presidente também escolheu no domingo Walter Bower como novo ministro do Interior. Ele desempenhava, até então, a presidência da Câmara dos Deputados. Um dos filhos de Argaña foi escolhido secretário particular de Macchi.
A renúncia do presidente Raúl Cubas, no domingo à noite, foi resultado de negociações entre os três poderes do Estado, diplomatas e representantes da Igreja Católica. Cubas governou o país por apenas 225 dias e caiu por seu apoio incondicional ao general Lino Oviedo, condenado a dez anos de cadeia por uma tentativa de golpe militar em 96. Ele chegou ao poder nas eleições de maio do ano passado com 54% dos votos e assumiu em 15 de agosto. Três dias depois, mandou soltar o general Oviedo, que havia tentado derrubar o ex-presidente Juan Carlos Wasmosy (1993-1998).
O promotor José Casañas pediu hoje a prisão de Raúl Cubas e alguns de seus colaboradores. Ele os acusa de "homicídio culposo" em razão dos incidentes de sexta-feira no país que resultaram na morte de vários paraguaios. Casañas também quer processar os senadores oviedistas Enrique González Quintana e Octavio Gómez por envolvimento nestes assassinatos. O ex-chefe de Polícia, Niño Trinidad Ruíz, está preso. O motivo é que a polícia não interveio durante os confrontos entre oviedistas e oposicionistas diante do Congresso.
Hoje, da Itália, o presidente argentino Carlos Menem disse que é preciso ver os tratados internacionais correspondentes para determinar se o país dará ou não asilo político ao general Lino Oviedo. Acrescentou ainda que em situações assim é preciso agir com calma. O general golpista se encontra no aeroporto argentino de San Fernando, para onde fugiu com a mulher, Raquel, e os três filhos.
Dirigentes da Aliança argentina (UCR-Frepaso), de esquerda, pediram a extradição do general argumentando que sua presença no país põe o Mercosul em perigo.
O pedido de extradição de Oviedo deve ser analisado pelo juiz Conrado Bergesio, que ordenou a detenção preventiva do general e autorizou sua família a abandonar o terminal aéreo. O vice-presidente argentino, Carlos Ruckauf, disse que a permanência ou não de Oviedo na Argentina depende do juiz. A possível extradição pode durar até oito meses.
A presidente das Mães da Praça de Maio, Hebe de Bonafini, pediu ao governo argentino que não dê asilo a Oviedo, a quem qualificou de assassino. O senador José Appleyar, que defende o ex-general paraguaio, disse que ele saiu do país porque não tem garantias.
O juiz paraguaio Gustavo Ocampo disse que Oviedo deverá cumprir pena de dez anos de prisão em presídio comum. É que ele perdeu sua patente de militar quando tentou um golpe de Estado. Se for mandado de volta para seu país, Oviedo já tem endereço certo, segundo Ocampo: a Penitenciária Nacional de Tacumbú.
Os paraguaios voltaram hoje à suas atividades, após uma semana de tensões. Para a dona de casa Glória Proust, que festejou a queda de Cubas, "morto o cachorro, acabou a raiva". As palavras da dona de casa expressam o sentimento dos paraguaios, para quem agora é preciso confiar que o novo governo propicie a reconciliação e participação de todos os setores políticos do país. "Espero que a unidade continue depois da euforia", disse a paraguaia Carmen de Torres. Os ônibus voltaram a circular e o movimento das zonas comerciais era intenso pela manhã. As escolas devem abrir as portas hoje à tarde.
O secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), o colombiano César Gavíria, saudou o povo paraguaio e suas autoridades "em virtude da transição pacífica do poder, dentro do marco constitucional e salvaguardando o processo democrático".
Para Jorge Lazarte, catedrático de Ciências Políticas da Universidade de La Paz (Bolívia), o Paraguai "esteve muito perto de perder sua democracia". Para ele, "o que começou mal terminou mal", referindo-se à libertação do general Oviedo por parte de Cubas.
Em Santiago (Chile), o chanceler José Miguel Insulza, declarou que seu país reconhece o novo governo porque foi empossado dentro dos mecanismos estabelecidos pela Constituição paraguaia.





