Belo Horizonte, 06 (AE) - Universitários da década de 90 estão mais preocupados com a realidade dentro dos campi do que com a política nacional. "Hoje o perfil do movimento estudantil é muito diferente de 30 anos atrás", avalia o novo presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE), Wadson Ribeiro, de 22 anos. "Nosso trabalho é relacionar o específico com o geral e levá-los a uma crítica ampla". Estudante do 5º período de Medicina da Universidade Federal de Juiz de Fora, Ribeiro foi eleito no 46º Congresso da entidade, encerrado no domingo, em Belo Horizonte. "A UNE precisa ficar antenada com a real expectativa dos estudantes, ser mais plural".
De quarta-feira a domingo, cerca de cinco mil delegados de todo o País estiveram reunidos discutindo questões como o crédito educativo, a autonomia das universidades públicas e a Lei da Filantropia. Além dos debates, atos de protesto contra Fernando Henrique Cardoso marcaram o encontro. Estes são os principais trechos da entrevista do novo presidente da UNE à Agência Estado: Pergunta - Qual é o principal desafio para a sua gestão? Ribeiro - Nossa luta é para aumentar a representatividade da entidade, mobilizar e ter um número maior de estudantes lutando contra o descaso do governo FHC com a política educacional. A mobilização é hoje o desafio. Hoje o perfil do movimento estudantil é muito diferente de 30 anos atrás. Para continuar sendo uma entidade unitária como foi nesses 62 anos, a UNE precisa ser mais plural. Estar mais antenada à real expectativa dos estudantes brasileiros. Pergunta - E qual é essa expectativa? Ribeiro - Nossa proposta é marcar debates a partir de setembro para escutar mais os estudantes e saber quais são seus problemas. Queremos nos reunir com o pessoal que estuda nas escolas enquadradas na Lei da Filantropia e ver como eles foram afetados. Vamos nas particulares saber como eles estão vivendo o problema do crédito e que proposta têm para sair desse modelo financiado por bancos a 12% ao ano. Vamos nas públicas discutir a questão da autonomia. Há também os estudantes envolvidos na produção cultural. É preciso incentivar os grupos de teatro, as bandas. Precisamos fazer uma UNE mais democrática, mais progressista. Pergunta - Você fala em ter uma entidade mais progressista, mas defendeu a continuidade das eleições indiretas para a presidência da UNE... Ribeiro - Mas o voto direto é menos democrático. Cada delegado que vem para o congreso foi eleito por voto direto em sua escola. A defesa do voto direto é uma manobra dos partidos políticos que querem ganhar a UNE. Quem tem condições para bancar uma campanha de eleições diretas para a direção da UNE no País todo? Só os partidos, os maiores. O que está em jogo é a concepção de democracia e é demagógico defender o voto direto agora. Hoje o movimento estudantil não está estruturado de forma a ter eleições diretas. Primeiro tem que organizar, fortalecer o movimento. Pergunta - A UNE reuniu as principais lideranças da oposição no País para um ato de protesto no sábado. Como será a participação da entidade na campanha contra o presidente Fernando Henrique? Ribeiro - Estamos num momento muito parecido com o Fora Collor. Os índices de rejeição a esse governo, a crise e o desemprego mostram isso. O clima é propício para colocar os estudantes de novo nas ruas. Pergunta - E você acredita que os estudantes vão para as ruas de novo como foram no impeachment de Fernando Collor? Ribeiro - As questões objetivas existem. Os alunos estão sofrendo com os problemas do crédito educativo, com o provão obrigatório, com a falta de verbas para a produção científica. E há também as questões subjetivas, a crise, o desemprego que afeta não só universitário. Afeta a dona de casa, a população de modo geral. Nosso trabalho é relacionar o problema específico do universitário com as questões mais amplas, levá-lo a uma crítica geral.

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