Paris, 30 (AE) - O ministro das Relações Exteriores da França
Hubert Védrine, está em Argel para se encontrar com o presidente Abdelaziz Bouteflika.
Trata-se de um acontecimento porque as relações entre Paris e Argel estavam estremecidas há anos. Foi o novo presidente Bouteflika que permitiu esta retomada dos contatos com a França.
O nome de Abdelaziz Bouteflika está em seu auge, porque este homem, colocado à testa do governo da Argélia depois de uma abominável guerra civil, poderá tornar-se o "homem forte" do Magreb (Marrocos, Tunísia e Argélia) e bem mais longe ainda (esta "guerra civil" colocou em confronto os muçulmanos e os generais argelinos, enquanto o povo argelino foi a verdadeira vítima desta guerra: 100 mil humildes argelinos foram assassinados em sete anos.) Bouteflika se impôs em apenas algumas semanas: conseguiu que o FIS (braço armado dos integristas muçulmanos) desse um "Adeus às Armas" e, ao mesmo tempo, assumiu uma estatura internacional que permite à Argélia reencontrar seu brio nacional.
Recentemente, por ocasião dos funerais do rei marroquino Hassan II, em Rabat, Bouteflika foi um dos líderes em evidência, eclipsando Chirac e até mesmo Clinton. O líder argelino Bouteflika conversou calorosamente com o primeiro-ministro israelense, Ehud Barak, e depois com o dirigente palestino Yasser Arafat (uma bela acrobacia e um belo espetáculo). Daí por diante, ele não se deteve mais. Encontrou na Espanha o rei Fahd, da Arábia, o ministro das Relações Exteriores da Espanha e agora o da França e está preparando uma viagem ao Oriente Médio, inclusive um encontro com o presidente sírio, Hafez Assad. Esta é uma das habilidades de Bouteflika: conseguiu tornar-se um dos atores do processo de paz entre Israel e a Palestina.
Esta recuperação da consideração perdida por parte da França, depois de longas desavenças, faz parte do enigma. Bouteflika surpreendeu a todos , e chocou os nacionalistas e os militares, empregando indiferentemente a língua árabe e a língua francesa. Crime de "lesa majestade": para "cortar a erva sob os pés" dos militantes islâmicos, os obtusos generais, que dirigiam a Argélia há tantos anos acharam conveniente acabar com a língua dos antigos colonizadores, os franceses. Ao poucos, a língua francesa foi desaparecendo dos atos oficiais, das universidades, da escola. Mas os cálculos dos generais resultaram errados: os militantes "islâmicos" ficaram insensíveis a esta "arabização" acelerada e continuaram cometendo seus "atentados".
Bouteflika deu uma reviravolta.. Fala francês para manifestar que a Argélia não sairá de seu "gueto" se não se abrir ao mundo inteiro. A consideração dada os favores feitos à língua francesa fazem parte deste cálculo, que seduz os universitários argelinos cujos estudos e cujas carreiras foram prejudicadas pela rejeição da língua francesa (cumpre observar que Bouteflika usa uma ou outra língua com o mesmo primor: às vezes ele se exprime num "árabe medieval" que encanta os "letrados". Às vezes num francês vindo diretamente do século 18...) Mas o número do equilibrista causa às vezes calafrio. Bouteflika chegou ao poder graças ao apoio dos generais, que são conhecidos como os "erradicadores", isto é, militares que desejam matar até ó últimos dos islâmicos, mesmo os moderados.
Contudo, agora, Bouteflika desafia seus "camaradas", estes generais estúpidos que não tinham nenhum outro plano senão o de manter o poder, a fim de tirar proveito da enorme receita proveniente do petróleo argelino.
Vem à mente a figura do general de Gaulle, que voltou ao poder em 1958 graças aos generais franceses da Argélia e aos franceses da Argélia (os chamados "pieds noirs" (pés negros). Mas, a partir do momento em que ocupou a cadeira da presidência da república francesa, de Gaulle aplicou uma política brilhante, aberta, generosa, ou seja, exatamente o inverso da política daqueles que o levaram ao poder.
Seguiram-se três anos de drama e de sangue. De Gaulle foi o vencedor.
Bouteflika joga hoje o "grande jogo" e enfrenta os mesmos perigos: os generais e os seus fiadores, traídos por ele, poderão voltar-se contra ele e abatê-lo. mas Bouteflika tem dois trunfos: os estrangeiros que admiram este estranho rapaz. E os argelinos que estão cansados de sangrar há sete anos.

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