Novo padrão de consumo muda cálculo da inflação
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sábado, 22 de maio de 1999
Por Márcia de Chiara 
São Paulo, 23 (AE) - Cinco anos depois do início do processo de estabilização de preços e de abertura mais intensa da economia, o consumidor ampliou seu padrão de consumo de bens e serviços. A conta do telefone celular, a tinta e o papel para a impressora do computador e os pratos prontos congelados, light ou diet, que praticamente não figuravam no orçamento familiar, agora são itens quase obrigatórios na lista de gastos. Para acompanhar essas mudanças, instituições que apuram os indicadores de variações no custo de vida já começam rever as estruturas de pesquisa de preços.
Resultados preliminares da nova Pesquisa de Orçamento Familiar (POF) da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), que apura a cada semana o Índice de Preços ao Consumidor (IPC) para as famílias com renda de um (R$ 136) a 20 salários mínimos (R$ 2.720), confirmam a diversificação no padrão de consumo do paulistano nos últimos anos.
Atualmente são coletados 340 preços de produtos e serviços. A nova estrutura do IPC da Fipe levantará, a partir do ano que vem, a cotação de cerca de 500 produtos e serviços, sem contar marcas e especificações diferentes. "A nova POF, que será concluída este ano, incluirá mais 150 produtos", afirma o coordenador do IPC da Fipe, o economista Heron do Carmo. Ele explica que o custo da pesquisa é alto e o levantamento se torna cada vez mais complexo por causa das mudanças nos hábitos de compra do consumidor e na produção das indústrias. A última POF realizada pela Fipe foi em 1991, a quinta desde a criação do índice.
Heron do Carmo explica que, de cinco anos para cá, uma ampla lista de novos produtos e serviços nas áreas de informática e telefonia celular estão sendo incorporados de maneira mais regular ao orçamento doméstico. Alguns grupos de serviços ganharam peso, como o de pratos congelados. "O telefone celular, por exemplo, que até pouco tempo era coisa de rico, está cada vez mais popular", diz o economista.
Além disso, há inúmeras especificações de produtos e serviços. São os alimentos diet, light, enriquecidos com ferro, vitaminas e fibras, o táxi comum, o especial, entre outros, relembra. O disco de vinil e o televisor preto-e-branco, por exemplo, foram suprimidos na última POF, feita em 1995, para atualizar a estrutura de gastos da população conforme o Índice do Custo de Vida (ICV) do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Sócio-Econômicos (Dieese) na cidade de São Paulo, conta a coordenadora do índice, Cornélia Nogueira Porto.
Como essa pesquisa é muito cara, a cada dez anos o Dieese refaz a estrutura dos hábitos de consumo da população. Na próxima pesquisa, prevê Cornélia, as despesas com celular e com os serviço de televisão a cabo deverão ser incluídas. "A recessão também deve ter mudado os hábitos de compra", ressalta.
Dificuldades - Com a evolução dos produtos e serviços, cada dia mais diversificados, o maior problema para pesquisar preços hoje é estabelecer um padrão, diz Heron. Até os anos 70, exemplifica, era mais fácil determinar o tipo de camisa pesquisado porque a moda era mais padronizada.
Os pesquisadores sabiam que deveriam entrar na loja e levantar o preço de um determinado tipo de camisa social ou esporte. "Mas, com a revolução nos padrões, do fim da década de 70 para cá, ficou difícil estabelecer as características comuns", afirma o economista.
Para reduzir essas distorções, Heron diz que o esforço na coleta de preços tem de ser maior. Com isso, os pesquisadores têm de visitar um número crescente de estabelecimentos comerciais para levantar as cotações e avaliar sistematicamente as variações de um determinado estoque dentro da loja.
Também os produtos de "vida curta", ou sem marca, constituem obstáculos à coleta de preços, porque os pesquisadores não conseguem acompanhar a evolução das cotações, concordam Heron e Cornélia. Quem encabeça essa lista dos produtos de alta rotatividade são os brinquedos, que entram e saem do mercado com muita rapidez para satisfazer a demanda infantil, ávida por novidades. No rol dos produtos sem marca, estão mercadorias tradicionais, como vassoura e balde, diz Cornélia. "As especificações da vassoura mudam muito: num dia ela é de piaçava, no outro tem cerdas de plástico", diz Heron.


