Marta Medeiros
De Maringá
Especial para a Folha
Um inquérito de estelionato aberto na 9ª Subdivisão Policial de Maringá (SDP) está chamando a atenção da polícia pelo trabalho ‘‘artístico’’ realizado para adulterar valores em cheques. O método impressiona pelo serviço milimétrico que o golpe exige e também pelo uso inusitado de esperma como ‘‘cola’’ alternativa. As novas técnicas preocupam lojistas e faz a Associação Comercial e Industrial de Maringá (Acim) intensificar campanhas de alerta.
Segundo o delegado Valdir Adão Samparo, responsável pelo inquérito, esta modalidade de adulteração ainda não havia sido registrada pela polícia de Maringá. ‘‘Com relação a cheques, a técnica mais conhecida é aquela em que o golpista apaga o valor para colocar outro maior’’, diz Samparo.
O caso aconteceu no início deste mês. Um golpista resgatou um cheque no comércio de Maringá e alterou o valor de R$ 35,00 para R$ 1.005,00. O serviço foi tão bem feito que o banco não desconfiou e pagou o cheque. Dois dias depois, o golpista voltou a atacar e modificou o valor de uma outra folha de R$ 42,00 para R$ 802,00.
A técnica de adulteração consiste em retirar a primeira camada da parte reservada para o valor em extenso com um estilete ou objeto similar. Neste momento, o serviço exige muita concentração. Em seguida, o golpista cola no lugar a parte que retirou de uma outra folha de cheque do mesmo banco com o valor alterado.
Para a obra de ‘‘arte’’ se completar, a colagem é feita com esperma. Conforme o delegado, a cola comum não teria a mesma aderência e nem permitiria a mesma perfeição. ‘‘O serviço é tão milimétrico e quase perfeito que o banco pagou o primeiro cheque sem nenhum problema. Somente na segunda tentativa o estelionatário foi pego’’, conta Samparo. As folhas de cheque estão sendo analisadas pelo Instituto de Criminalística da Polícia Civil de Maringá.
A operação para conseguir a folha de cheque ‘‘quente’’ é uma outra etapa do ‘‘trabalho’’ realizado pelos golpistas. Eles acompanham o movimento de uma loja e de maneira dissimulada conseguem perceber o cliente que efetua uma compra com cheque de pequeno valor. Depois que o cliente vai embora um dos golpistas volta na loja (isso pode ocorrer depois de alguns dias em casos de cheque pré-datado) e conta uma história para o caixa.
Ele argumenta que o fulano de tal perdeu o talão e que está resgatando as folhas que emitiu. O golpista paga a compra e consegue o cheque de volta. O trabalho operacional de adulteração se completa porque os estelionatários, em sua maioria, têm em mãos outras folhas de talões de cheques extraviados por furto ou por perda de clientes. Conseguir uma folha do mesmo banco para permitir a troca do extenso fica fácil.
O delegado afirma que o trabalho é feito por uma quadrilha, mas até a agora a polícia só identificou um dos estelionatários. ‘‘A pessoa que altera o valor nunca é a mesma que resgata o cheque no comércio’’, justifica Samparo. O delegado resume bem a ‘‘ópera’’ dos golpes com uma dica para o correntista que não quer ver sua conta bancária estourada. ‘‘Todas as folhas de um talão devem ser cruzadas. Afinal, o golpista quer trocar dinheiro na boca do caixa e não um depósito para ser descoberto’’, ensina Samparo.
Segundo o diretor de Negócios e Expansão da Acim, Gabriel Heg, o Serviço de Proteção ao Crédito (SPC) e o Vídeo Cheque são sistemas eficientes para a prevenção da inadimplência e de golpes. ‘‘Estes serviços não são apenas para cadastrar devedores mas, principalmente, para ajudar o comerciante a se prevenir de problemas como o estelionato’’, afirma Heg.
O diretor lembra que há 15 dias o serviço colaborou com a polícia na prisão de uma mulher que tentava passar em uma loja um cheque furtado. ‘‘Quando a comunicação é eficiente, as telas do Vídeo Cheque alertam a ocorrência de folhas furtadas ou extraviadas e colaboram com o lojista que está efetuando uma venda’’, completa Heg. O comerciante paga R$ 0,50 por cheque consultado e o serviço de comunicação de furto ou extravio de documentos e cheques é aberto a comunidade pelo telefone 221-5020.

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