Novo grupo de imigrantes venezuelanos chega ao Paraná
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sexta-feira, 21 de dezembro de 2018
Rafael Costa<br>Reportagem Local 

Um grupo de 102 imigrantes venezuelanos que estavam em Roraima chegou a Curitiba nesta quinta-feira (20). Eles foram recebidos pela Cáritas Brasileira, que vai alojá-los em casas com aluguéis subsidiados em Curitiba e Colombo, na Região Metropolitana, e ajudá-los a se integrar à sociedade e ao mercado de trabalho.
A ação é feita por meio do programa Pana, em parceria com a Cáritas Suíça e o Gift of the United States Government, além de apoio da OIM (Organização Internacional para as Migrações).
O programa se diferencia das ações da Cáritas que receberam grupos nos últimos meses (cerca de 90 imigrantes venezuelanos em setembro e 32 em outubro) porque encaminhará os venezuelanos a casas, e não a abrigos, até que eles tenham emprego e moradia própria.
O projeto está presente Boa Vista (RR), Porto Velho (RO), Brasília (DF), Recife (PE), São Paulo (SP), Florianópolis (SC) e Curitiba (PR). Na capital paranaense, foram alugadas 13 casas. O programa também fornece, na chegada, itens como alimentos, roupas e kits de higiene pessoal. Dos 102, 68 serão abrigados em casas em Colombo e 34, em Curitiba.
Dentro de seis meses, um novo grupo de 102 venezuelanos deve chegar. "É um programa de um ano com o objetivo de interiorizar 204 venezuelanos em Curitiba", explicou o secretário-executivo da Cáritas Paraná, Amauri Antonio Mossmann.
Ele contou que os imigrantes que chegaram nesta quinta estavam em Boa Vista e Pacaraima, na fronteira. Segundo ele, a maioria estava vivendo nas ruas - diferentemente dos que foram transferidos em ações anteriores ligadas ao programa de interiorização do Governo Federal, que selecionava imigrantes em abrigos.
Os venezuelanos foram recebidos com abraços, cartazes e um pequeno show de boas-vindas com música religiosa, além de um carreteiro servido pelo Exército - que também foi o responsável pela logística da chegada e transferência do Aeroporto Afonso Pena até a Paróquia Santo Antônio Maria Claret, no Alto Boqueirão - bairro de Curitiba perto da divisa com São José dos Pinhais.
Eles foram transportados de Roraima pela Força Aérea Brasileira.
O Programa Pana (que significa algo como "camarada" ou "amigo" na Venezuela) é orientado por quatro eixos - "proteger", "prover" , "abrigar" e "educar".
"É também parte de um grande plano de ajuda humanitária da Igreja", explica Mossmann. "Há venezuelanos que estão nas ruas de Roraima, sendo perseguidos, sofrendo violência e até sendo mortos - além de toda a violação que já sofreram na Venezuela", disse. "Por isso estamos tentando trazê-los para a comunidade."
A integração inclui o ensino do português e acesso a serviços de educação e saúde.
Mossmann diz que, dos cerca de 130 que vieram nos últimos meses e foram temporariamente abrigados na Casa de Acolhida Dom Oscar Romero, no bairro Fanny, cerca de 80% já conseguiram trabalho e casa própria. "Eles são muito proativos. É uma característica dos venezuelanos. Eles procuram trabalho, vão atrás. E são pessoas qualificadas", disse.
Segundo Marcos Regazzo, psicólogo e articulador local da Cáritas, a maioria dos que vêm ao Paraná o fazem com a perspectiva de não voltar ao país origem, devido à distância da Venezuela. "Eles vêm com a expectativa de reconstruir a vida", explicou.
A professora Rockmillys Basante saiu de Maturín e chegou com a família - dois filhos jovens, o marido, um irmão e um primo - há cerca de quatro meses. Contou que vieram sem nada e passaram meses abrigados na casa de uma família brasileira. "A maioria dos venezuelanos vai a Roraima porque é a oportunidade mais próxima para poder sair da Venezuela e empreender um novo futuro", contou.
Ela disse que espera se integrar ao Brasil. "O povo venezuelano pode se converter em parte da solução para o desenvolvimento do Brasil. Não é um problema. Somos gente trabalhadora, muito honesta", disse. "Os que saímos não saímos por covardia, saímos por necessidade de sustentar nossa família, salvar nossa família, seguir crescendo. Não é fácil para ninguém deixar sua casa, seu emprego, sua comodidade, que custou tanto para conquistar, e chegar num lugar onde não conhece ninguém e não tem nada - às vezes, nem sequer sapatos", diz.
Já a cabeleireira Marlis Martinez procurou o Brasil em busca de tratamento para o marido, Oscar Caraballo, que precisa de hemodiálise. Segundo ela, os medicamentos estavam em falta na Venezuela. "Amigos dele que faziam hemodiálise já estão mortos", contou. Caraballo diz que pretende "fazer uma nova vida" no Brasil. "Quero que minha filha estude aqui, quero um melhor futuro para ela", disse.
Já a família de Liliana Rodriguez tem a expectativa de que a situação melhore na Venezuela para um eventual retorno. Ela veio com o marido, Efren Gómez, as duas filhas, de 2 e 9 anos, e o irmão, Carlos Rodriguez. Disse que não havia trabalho na Venezuela e a inflação corroeu os salários. "Ou comíamos ou nos vestíamos", lembra.


