Washington, 15 (AE) - Em um almoço no Departamento de Estado há exatamente uma semana, o secretário de Defesa adjunto para Segurança Internacional, Frank Kramer, explicou por qual motivo a Otan estava bombardeando a Iugoslávia.
Para a seleta platéia de militares, diplomatas e estrategistas
que esperavam ouvir argumentos geopolíticos, ele contou seu diálogo com um refugiado albanês de 15 anos - um dos milhares, expulsos de suas casas no Kosovo, depois de assistirem às tropas sérvias matarem seus vizinhos.
"Quando perguntei a ele como foi, ele só respondeu duas palavras em inglês: Quanto sangue", disse Kramer. "É por isso que estamos lá, para proteger essas crianças e essa região", concluiu.
O emocionado relato de Kramer faz parte de uma campanha, junto à opinião pública, que vem sendo desenvolvida com muito sucesso desde o início das ações militares da Otan na Iugoslávia, há mais de três semanas. Enquanto os aviões dos EUA e seus aliados jogavam bombas sobre alvos estratégicos, os telespectadores desses países eram bombardeados com imagens de mulheres, crianças e velhos chorando - todos eles vítimas do presidente iugoslavo Slobodan Milosevic.
Hoje foi a vez de o presidente Milosevic usar as mesmas armas que Kramer para conquistar a simpatia da opinião pública americana - o maior desafio para a supremacia militar da Otan no Kosovo. As imagens dos corpos ensanguentados de refugiados, atingindos por engano pelos Estados Unidos e seus 18 aliados, desencadeou novos debates e discussões, ameaçando enfraquecer a aliança.
"Eu achava que tínhamos de enviar tropas terrestres para lá, para prender um criminoso como Milosevic e impedir um genocídio, mas agora já não sei se estamos fazendo a coisa certa", comentou Christine Allen, uma professora primária de Washington. Até hoje, muitos americanos pensavam o mesmo que ela e não conseguiam entender por qual motivo a Otan não agia de forma mais drástica para impedir os crimes contra a humanidade que tanto denunciava.
O bombardeio de informações foi tão eficaz, que pais e professores nos Estados Unidos começaram a pedir e receber dicas sobre o que dizer aos seus filhos (mesmo os da maternal) sobre o Kosovo. O médico Alvin Poussaint e a especialista em educação Susan Linn foram uns dos tantos que elaboraram uma cartilha, dando conselhos.
Na cartilha, os dois dizem que é quase impossível impedir uma criança de ver imagens da guerra no Kosovo. Se seu filho de quatro anos assistir a uma cena do noticiário das 18h e perguntar por qual motivo "aquele homem lá está chorando", é melhor contar a verdade, sem entrar em muitos detalhes. Respostas sugeridas são: "Essas pessoas estão tristes porque ficaram sem suas casas" ou que "estão com medo porque outras pessoas querem machucá-las".
Para os pais de um adolescente de 15 anos, que pede explicações mais detalhadas, Poussaint e Linn sugerem contar histórias de "limpeza étnica" no Kosovo, em Ruanda e na Alemanha nazista e comparar o envolvimento dos EUA nesses três casos. O presidente Bill Clinton, aliás, já fez questão de dar várias aulas sobre o assunto: ele apareceu mais de uma vez na televisão, para mostrar um mapa dos Bálcãs, e explicar que os americanos decidiram agir para evitar a repetição do drama dos judeus, na Segunda Guerra Mundial.
Hoje, alguns começaram a questionar as comparações simplistas de Milosevic com Hitler. Em debates nos cafés de Washington e nos pontos de encontro virtuais da Internet, apareceram pacifistas pregando a busca de uma saída diplomática, comentários sarcásticos sobre os "motivos humanitários da Otan", ou confusos sobre a possibilidade de uma bombardeiro sofisticado errar a mira.
Mas o maior número de críticas foi dirigido à Otan, por causa das explicações iniciais sobre o incidente. Antes de admitirem que seus aviões bombardearam os refugiados, por engano, os aliados disseram que os sérvios mataram os civis para levar a opinião pública a culpar a Otan. Essa versão foi logo desmentida pela própria Otan - mas a dúvida, num país que acaba de criticar seu presidente por ter mentido sobre um caso extra-matrimonial, ficou.

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