Novo embaixador do Brasil nos EUA quer ser interlocutor da sociedade
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domingo, 13 de junho de 1999
Por Paulo Sotero 
Washington, 14 (AE) - O embaixador Rubens Barbosa assumiu hoje o comando da Embaixada do Brasil nos Estados Unidos
afirmando aos diplomatas e funcionários que o plano de trabalho dele tem como objetivo "ampliar as condições para que a embaixada em Washington seja percebida como um interlocutor útil para o governo, o Congresso, as organizações não-governamentais (ONGs), as instituições financeiras internacionais e companhias privadas, por meio de uma atuação pró-ativa em setores prioritários" para os interesses brasileiros.
A vaga aberta na Embaixada em Londres pela transferência de Barbosa para Washington foi preenchida hoje com a chegada do embaixador Sérgo Amaral, o ex-porta-voz do presidente Fernando Henrique Cardoso. Embora os objetivos de Barbosa sejam basicamente os mesmos de vários dos antecessores dele, o diplomata é o primeiro chefe da representação brasileira em Washington, em anos, com chances reais de produzir um salto de qualidade no trabalho da embaixada. Em parte, isso se deve às qualidades pessoais e profissionais desse diplomata de carreira, de 60 anos, que ganhou reputação de grande operador no Itamaraty nos dois primeiros postos de embaixador - primeiro, na chefia da missão do Brasil junto à Aladi e, depois, no comando da representação do País em Londres. "Barbosa realmente elevou o perfil do Brasil em Londres", disse hoje o jornalista Stephen Fiedler, ex-editor de América Latina do "Financial Times" e atual sub-chefe da sucursal do diário inglês em Washington.
A favor do novo embaixador, pesam dois outros fatores. Um homem ligado ao PSDB de São Paulo, Barbosa é o primeiro embaixador nos EUA nomeado pelo presidente Fernando Henrique Cardoso. Barbosa é beneficiário também dos diálogos mais produtivos e com menos irritantes que o Brasil e os EUA passaram a ter após a chegada de Fernando Henrique ao Palácio do Planalto.
Nesse sentido, ele leva uma grande vantagem em relação aos antecessores nos últimos 20 anos. O diplomata Antonio Azeredo da Silveira, o último embaixador do regime militar nos EUA, serviu em Washington a contragosto e ignorado pelo governo americano. O sucessor de Silveira, Sérgio Correa da Costa, que é sogro de Barbosa, enfrentou o agravamento do contencioso comercial entre o Brasil e os EUA, com a ação de Washington contra a política brasileira de informática. O diplomata Marcílio Marques Moreira, o segundo embaixador do presidente José Sarney (PMDB) em Washington, era bem visto na capital americana, mas foi hostilizado em Brasilia pela equipe econômica do então ministro da Fazenda, Dílson Funaro, e teve de administrar os efeitos diplomáticos de duas moratórias e o agravamento do litígio comercial como representante de um governo tido na capital americana como um desastre para o Brasil e para as relações entre os dois países. O embaixador Rubens Ricupero, que assumiu o lugar de Moreira, teve a atuação tolhida pela crise do impeachment do ex-presidente Fernando Collor de Mello e a instabilidade que marcou o governo de Itamar Franco (PMDB).
Nomeado por Itamar para a embaixada em Washington, o diplomata Paulo Tarso Flecha de Lima sofreu as consequências dos embates que travou nos anos 80 com Washington, como secretário-geral do Itamaraty e defensor de políticas protecionistas. Sempre foi visto mais como aliado do presidente do Congresso, senador Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA), do que do próprio presidente da República e nem sempre atuou afinado com o Planalto, especialmente em questões relacionadas com ONGs de defesa ambiental e dos direitos humanos. Além disse, trabalhou desconectado da equipe econômica brasileira num momento em que o eixo das relações com os EUA se transferiu do Departamento de Estado para o do Tesouro.
Embora tenha se recuperado do derrame cerebral que sofreu em 1995 e continuado a trabalhar, Lima, teve a atuação limitada também pelas sequelas do acidente vascular. No último fim de semana, ele assumiu a Embaixada do Brasil em Roma - "Um presente do presidente Fernando Henrique para que eu pudesse terminar minha carreira na cidade em que tive meu primeiro posto no exterior", disse ele, antes de deixar Washington.


