São Paulo, 15 (AE) - O empresário paulista Amilcare Dallevo Júnior, de 41 anos, gosta de apostas ousadas. Prestes a ter aprovada pelo presidente da República a compra da TV Manchete, que está com o equipamento sucatado e é um verdadeiro cipoal de dívidas, ele garante que irá transformá-la numa das principais e mais modernas redes do País. Quer enfrentar a Rede Globo.
Para mostrar que não se trata de bazófia, Dallevo já anunciou que pretende investir US$ 100 milhões na melhoria das cinco emissoras que compõem a Manchete. Ele disse ao Estado que o início desse investimento ocorrerá logo que for concretizada a compra, o que pode ocorrer nas próximas horas.
Dallevo também afirmou que, embora seja mais conhecido na área de produção de equipamentos de telefonia, não deve ser visto como um novato no setor de TV. Lembrou que quem vai dirigir as mudanças na Manchete será a TV Ímega, empresa que ele criou há três anos, em sociedade com o executivo Marcelo de Carvalho Fragali.
A TV Ímega , dedicada até agora à produção de programas, já dispõe de um estúdio que, segundo informações de especialistas no setor, opera com equipamentos de última geração. Ela está instalada em Alphaville, nos arredores da cidade de São Paulo - a mesma região na qual Dallevo pretende instalar as sedes administrativas da Manchete e de outras duas empresas que ele controla, a Tecnet e a TeleTV. Para efeitos de transmissão dos sinais, porém, a cabeça da rede continuaria no Rio.
De acordo com informações do mercado, a compra da Manchete vai exigir um desembolso de US$ 608 milhões. Somados aos investimentos na modernização, seriam mais de US$ 700 milhões. O que se pergunta no mercado é de onde vem o dinheiro. De acordo com informações de um executivo do Rio à repórter Sônia Apolinário, a instituição americana Lehman Brothers estaria envolvida no negócio.
Assessores de Dallevo não negam a presença da organização, mas esclarecem que atua apenas como consultora, uma vez que é especializada em fusões e aquisições. Quanto à origem do dinheiro, garantem: não há nenhum financiamento externo, apenas com bancos privados nacionais.
Capitalização - Outro comentário do mercado é que as empresas de Dallevo estão altamente capitalizadas e, por isso, ele conseguiu fazer o lance da TV. Quem diz isso lembra sempre das operações da TeleTV, a empresa que liderou durante quase dois anos o fabuloso negócio dos sorteios na TV pelo 0900.
Essa atividade foi suspensa temporariamente no ano passado, por decisão judicial, após a constatação de que as instituições filantrópicas em nome das quais se organizavam os sorteios ficavam com uma ínfima parte das fortunas arrecadadas. O grosso do dinheiro ia para os provedores, como a TeleTV, as emissoras de TV e as telefônicas.
Segundo informações de integrantes da Comissão Parlamentar de Inquérito da Assembléia Legislativa de São Paulo, que investigou o assunto, a empresa de Dallevo controlava quase 80% desse mercado. Quando veio a proibição, ela já estava altamente capitalizada. Indagado sobre a possibilidade de o dinheiro dos sorteios ter possibilitado o lance da Manchete, Dallevo foi evasivo. Por fax, informou: "Estamos assumindo o negócio porque temos condições de honrar os compromissos e criar uma boa rede de TV." Em seguida lembrou que trabalha há mais de uma década com bons resultados nos negócios.
De fato, a ousadia de Dallevo é antiga. Em 1984 ele deixou o cargo de gerente da área de telecomunicações do Citibank e apostou tudo numa empresa própria, a Tecnet. Foi bem-sucedido. A empresa tornou-se líder na área de tecnologia para redes telefônicas, exibindo na sua lista de clientes alguns dos principais bancos do País.
Bill Gates do Brasil - Mais tarde ele, em sociedade com Fragali, que é originário da área de marketing da Rede Globo, criou a TeleTV. Essa empresa desenvolveu tecnologia para prestar serviços telefônicos interativos e de telemarketing e também deu certo. Com quase 15 mil linhas de telefone, a TeleTV é a maior empresa do setor. Tem contratos com grandes empresas e presta vários tipos de serviços, como os de atendimento ao consumidor pelo 0800. Foi com essa plataforma que ele pôde bancar o negócio do 0900. De acordo com informações de especialistas, a Tecnet cresceu de maneira rápida. O mesmo ocorreu com a TeleTV. Na opinião do deputado Faria Júnior, dono do Abba, que também atuava no mercado dos sorteios, "Dallevo e Fragali são os Bill Gates brasileiros". Outros empresários reconhecem que Dallevo é um engenheiro competente, bom vendedor e, sobretudo, um workaholic - desses que costumam trabalhar noite adentro. Em 1992, quando o faturamento da Tecnet já passava de US$ 5 milhões, ele foi aconselhado a reduzir o ritmo de trabalho e o peso - que então chegava a 117 quilos.
Hoje ele pesa bem menos e procura dedicar mais tempo aos três filhos. Na semana passada, porém, parecia ter voltado aos velhos tempos, com reuniões sucessivas em São Paulo, Rio e Brasília. O ex-gerente do Citi agora sonha com um império na TV.

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