Novo desafio é a pesquisa do solo de Marte
PUBLICAÇÃO
domingo, 18 de julho de 1999
Por Oliver Morton 
Nova York, 19 (AE-NEWSWEEK) - Atualmente, há dois programas espaciais em execução, que podem ser comparados ao Apollo na ambição e na complexidade, além de sua importância como notícia.
Um é o programa da Estação Espacial Internacional. O outro, um décimo mais barato, é a missão para trazer amostras da superfície de Marte para a Terra. A descida em Marte no ano 2003 será o primeiro estágio, colocando um jipe de exploração em algum local perto do equador do planeta.
No tempo da Apollo, Marte não parecia valer esforço semelhante. Nos anos 60 e 70, todos os sonhos do século sobre a existência de vida em Marte colidiram com a dureza dos dados de pesquisa.
As primeiras sondas passaram perto do planeta e revelaram um mundo quase desprovido de ar e coberto de crateras. Entre 1976 e 1996, nenhum engenho espacial o visitou. A única tentativa de fazê-lo, o Observador de Marte, da Nasa, explodiu durante o percurso, ao que parece.
No começo dos anos 90, a Nasa lançou o programa Surveyor e está enviando naves ao planeta de dois em dois anos. Este ano, um veículo espacial pousará perto do pólo sul de Marte, outro entrará em órbita para estudar o clima e duas microssondas do tamanho de bolas de basquete atingirão em cheio a superfície, penetrando-a a 400 milhas por hora para ver o que existe debaixo dela.
Outras missões incluem jipes que enviarão amostras e um novo tipo de explorador planetário - um avião que voará pelos céus de Marte quando forem completados 100 anos do vôo dos irmãos Wright.
O programa Surveyor, com outras missões do Japão e principalmente da França, marca um novo tipo de exploração espacial: a primeira presença humana permanente fora da órbita terrestre. Um conjunto com satélites de comunicação para os robôs de Marte está sendo desenvolvido. As bases de dados vão crescer; as realidades virtuais se tornarão reais; Marte se transformará numa província no espaço cibernético, inteiramente integrada.
Os cientistas e o público explorarão um mundo alienígena - e verão muita coisa estranhamente familiar. Carl Pilcher, diretor-científico da Nasa para o Programa de Exploração do Sistema Solar, diz que as missões do Surveyor já estão revelando um planeta Marte que, longe de estar morto e sem brilho, é "surpreendentemente parecido com a Terra". Alguns de seus vulcões são tão jovens que podem estar ativos ainda; a crosta planetária, que era antes considerada primordial, mostra sinais de ter passado por um processo de reciclagem, pelo menos em parte, como aconteceu com a Terra. E, embora Marte seja hoje frio e seu ar rarefeito demais para que a água subsista em sua superfície, no passado era bem diferente.
Desde os anos 70, ficou claro que a superfície marciana foi marcada pela água que circulou nela, mas é possível que os fluxos tenham sido muito breves. Agora parece cada vez mais provável que a água empoçou na superfície, persistindo durante séculos, milênios ou por mais tempo ainda. Há leitos como o de Gusev; vestígios de geleiras, que só podem ter-se originado de precipitações de neve em inúmeras estações; e ainda indícios mais fortes de oceanos antigos ao longo das vastas bacias geológicas baixas do Norte. É provável que haja gelo no solo que cerca as calotas polares.
Lá, é possível que haja também água em estado líquido, em lençóis hermeticamente vedados abaixo da crosta. As rochas de Marte podem conter fósseis. Os gelos dos altiplanos talvez possuam amostras de seres que viveram no planeta. E é perfeitamente concebível que as águas profundas possam ainda conservar não apenas vestígios de vida, mas a própria vida. Se houver vida alienígena real em Marte, então não será improvável que haja vida em toda a parte.
Em diversos termos de comparação, o sistema solar é bastante grande. Para os padrões daqueles que estão procurando vida, é um pouco pequeno. Tem Marte, que teve água um dia e já é o foco dos programas mais ambiciosos de exploração robótica. Tem Europa, a lua de Júpiter, que parece possuir um vasto oceano embaixo de sua crosta. Esse é o destino da próxima missão da Nasa rumo aos extremos do sistema solar. E isso é quase tudo. Embora exista gelo, em maior ou menor quantidade, por toda a parte, dos pólos de Mercúrio às vastidões ermas situadas para além de Plutão, a Terra, Marte e Europa são os únicos três lugares que, pelo que se sabe, possuem massas de água em estado sólido (outras luas podem também ter mares sob a superfície, mas ainda falta um veredicto). Mas os planetas e luas de nosso sistema solar não são os únicos que existem. Nos últimos quatro anos, astrônomos usaram telescópios para descobrir indícios fortíssimos, embora indiretos, sobre a existência de 20 grandes planetas que giram em torno de outros astros.
Esses grandes planetas são interessantes não só por sua existência, mas também por seu tamanho; mas planetas menores, semelhantes à Terra, seriam muito mais interessantes. Planetas assim devem ser descobertos em breve, também, se é que existem.
Nos próximos dez anos, bases telescópicas espaciais fornecerão provas indiretas da existência de planetas tão pequenos quanto a Terra ou ainda menores. Logo em seguida, instrumentos mais ambiciosos terão capacidade de detectar esses planetas diretamente e talvez descobrir a presença de água e vida na atmosfera deles. Isso marcará o segundo grande triunfo dos próximos 30 anos de exploração.
A técnica que tornará isso possível é a interferometria. Um interferômetro retira luz de vários telescópios auxiliares e combina tudo de tal maneira que separa detalhes normalmente visíveis apenas por meio de um telescópio muito maior: um interferômetro, combinando a luz de dois telescópios situados a 100 metros de distância um do outro, pode captar imagens com a nitidez de um telescópio com um espelho de 100 metros de diâmetro.
Os interferômetros podem ser usados também para não ver as coisas. É possível arranjá-las de tal maneira que as diferentes imagens de um objeto situado no centro do campo de visão do telescópio se cancelem mutuamente. Essa técnica - a anulação - é muito difícil, mas bastante útil; significa que se pode efetivamente fazer desaparecer a luz brilhante de uma estrela quando estiver procurando os planetas mais apagados que estão em volta dela. Já que os planetas são 1 milhão de vezes, mais ou menos, menos brilhantes do que uma estrela, essa técnica é de grande ajuda.
Os planos atuais da Nasa para seu Terrestrial Planet Finder (TPF) fazem uso de cinco naves espaciais separadas, quatro que levam telescópios destinados a utilizar luz infravermelha (porque a diferença de brilho entre as estrelas e planetas é menos aguda nesses comprimentos de onda, ligeiramente mais longos) e um quinto, o Hub, contendo o núcleo central do interferômetro.
Para colher o brilho fraco de um planeta a dezenas de anos-luz de distância, cada telescópio terá um espelho, talvez com 4 metros de diâmetro, que lhes dá uma área total mais de dez vezes maior que a do Hubble. Os quatro telescópios voarão em formação a um raio de 75 metros a 1 quilômetro do interferômetro, dando-lhe o poder de nitidez necessário para distinguir os planetas mais pálidos das brilhantes estrelas em torno das quais eles giram.
Os diferentes componentes do sistema necessitarão conhecer onde cada um dos outros se encontra, com precisão de um bilionésimo de metro, quando transmitirem os sinais fracos de luz do planeta um para o outro, num complexo jogo de feixes de luz.
O TPF não apenas procurará planetas, mas começará também a os estudar. Se puder apontar de forma constante para um planeta durante duas semanas ou mais, captará suficiente luz infravermelha por ele emitida para começar a analisá-lo, selecionando os comprimentos de onda que correspondam à presença de vapor de água, dióxido de carbono, metano, ozônio e outros gases na atmosfera do planeta. Como observou o cientista britânico James Lovelock, no fim da década de 60, a atmosfera da Terra é uma chama longa e lenta. Alguns de seus elementos constituintes - por exemplo, o oxigênio e o metano - reagem mutuamente de maneira contínua. À medida que o oxigênio e o metano se vão esgotando mutuamente, tanto mais a vida produz oxigênio e metano. Dessa forma, a atmosfera da Terra está longe do equilíbrio químico no qual estaria se não houvesse a vida para mantê-la em atividade. Por outro lado, as atmosferas dos outros planetas restantes do sistema solar são tão equilibradas quanto os dois pratos da balança da Justiça. Quando o TPF olhar a luz infravermelha proveniente de planetas do tamanho da Terra em torno de outras estrelas, deveria poder farejar qualquer desequilíbrio particularmente intenso.
Com o tempo, Marte terá sido examinado atentamente num grande número de lugares; fragmentos de sua superfície e de outros corpos celestes terão sido estudados em laboratórios na Terra. Balões, ou mesmo aeronaves, terão visitado a atmosfera de Marte, Vênus e a lua de Saturno, Titã. O que outrora se dizia ser o espaço, considerado como uma espécie de massa disforme, terá sido decomposto numa vasta série de lugares.
Tudo isso é verdade, quer os seres humanos se aventurem ou não a ir além de suas estações espaciais, que voam muito baixo. Não é preciso que seres humanos estejam ali para que qualquer dessas coisas aconteça. Precisamos apenas continuar com os atuais programas científico-espaciais de robôs dentro dos atuais níveis orçamentários. Como afirmou John Pike, que analisa a política espacial para a Federação dos Cientistas Americanos, "o paradigma Von Braun foi rompido". Werner von Braun, o engenheiro-rei da Apollo, pensava que as missões com robôs seriam naturalmente acompanhadas por missões com seres humanos. Os programas se tornariam cada vez maiores e mais complexos e exigiriam, portanto, sistemas suficientemente grandes para os corpulentos seres humanos e seus suprimentos espaciais.
O objetivo mais óbvio para enviar pessoas ao espaço, além da estação espacial, é uma série de missões a Marte: suas tripulações seriam muito mais eficientes do que qualquer tipo de "jipe" atualmente cogitado, capazes de cavar buracos e brandir martelos geológicos com facilidade e graça. Mas, embora essa série de missões não precisasse ser muito mais cara do que a estação espacial - poderia ser até mais barata -, ainda seria necessário um orçamento 10 ou 20 vezes maior do que o atual que sustenta o programa Surveyor.
Exatamente como o envio de pessoas à Lua, as missões para enviar seres humanos a Marte exigiriam uma justificativa política. Bob Zubrin, o engenheiro a cujo trabalho de planejamento das missões a Marte se atribui em grande parte o mérito de tornar tais missões vagamente viáveis, argumenta que o motivo para justificar essa aventura seria pôr novamente a História em andamento. Por meio de seus esforços para pressionar o governo, Zubrin promove a idéia de que a América e o mundo em geral exigem uma nova fronteira. Na sua opinião, Marte é essa fronteira.


