Novo confronto em favela do DF deixa 20 pessoas feridas
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sexta-feira, 08 de agosto de 1997
Agência Estado Brasília 
Ed Ferreira/Agência Estado
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ResistênciaMoradora da invasão da Via Estrutural é socorrida por policial da Tropa de Choque da PM durante confrontoPelo menos 50 pessoas foram presas e 20 feridas - três a tiros de revólver - no mais grave confronto ocorrido este ano entre policiais militares e moradores da Cidade Estrutural - a maior favela do Distrito Federal, localizada a 20 quilômetros do Palácio do Planalto. Vários carros também foram depredados. Este é o terceiro e mais grave confronto em menos de dois meses. Os moradores reagiram à destruição de barracos pelos PMs com tiros e coquetéis molotov.
Os policiais militares estavam na Cidade Estrutural dando cobertura aos funcionários do governo do Distrito Federal e da Receita Federal que retiravam materiais de construção, madeira e mercadorias de comércios clandestinos. Logo pela manhã, centenas de moradores fizeram uma barreira humana na entrada da favela para impedir a entrada da polícia. A partir daí, o confronto foi inevitável.
Revoltados e comandados pela presidente da Associação de Moradores, Marlene Mendes, as pessoas reagiram atirando pedras e paus nos PMs, que revidaram com balas de borracha, gás lacrimogêneo e de efeito moral. Três pessoas - Agenor Moreira dos Santos, tratorista do governo do DF, Antônio Carvalho Siqueira (que foi operado ontem mesmo e passa bem) e Carlos Henrique dos Santos, moradores da favela - foram feridas à bala, que a PM garante ter partido dos próprios moradores.
De acordo com balanço do comandante regional de policiamento, coronel Augusto Willer, pelo menos 50 pessoas foram presas até as 13 horas, quando o conflito já estava praticamente encerrado. Outras 17, sendo oito policiais, ficaram feridas levemente e foram atendidas no próprio local pelo Corpo de Bombeiros.
Dois PMs, identificados apenas como sargento Otoni e soldado Noé, foram presos por espancar um dos moradores. O promotor Paulo Gomes de Souza acompanhou a ação da polícia e garantiu que ação transcorreu sem excessos. Segundo o coronel Willer, a PM evitou prender mais moradores para evitar que o confronto se agravasse. Os riscos seriam maiores e poderiam piorar a situação, disse.
Na ação, foram derrubadas três madeireiras clandestinas, dois supermercados ilegais e locais onde estavam sendo guardados materiais de construção, inclusive na sede da Igreja Assembléia de Deus e de uma creche evangélica, mantida por Marlene Mendes. Não foi encontrado nenhum tipo de material para construção de barracos, apenas um carro e equipamentos de som. Até mesmo a caixa dágua usada pelos moradores foi derrubada.
O confronto entre a PM e moradores da Estrutural foi o mais grave já ocorrido este ano na área, onde moram em torno de quatro mil pessoas. Desta vez, os moradores organizaram-se rapidamente em focos de resistência. Alguns grupos portavam armas de fogo e coquetéis molotov, que eram jogados nos carros do batalhão de choque, integrado por 530 policiais militares.
Alguns moradores prepararam-se especialmente para a ocasião. Com o rosto pintado de preto, ou usando camisas como máscaras, a agressividade era visível. Nós queremos é um local para morar, mas o governo do Cristovam Buarque (PT) não nos ajuda, reclamava o morador identificado como Marcus Vinícius. Ele só mexe com o pessoal pobre, mas não retira os ricos que estão em diversos condomínios ilegais em Brasília.
Não existe nenhuma diferença entre algumas pessoas que estão aqui e narcotraficantes do Rio de Janeiro, disse o coronel Willer. Aqui eles têm armas pesadas e muitos usam drogas, acrescentou o comandante regional de policiamento, explicando que é difícil localizar o armamento e os locais de venda de tóxicos, em função da falta de iluminação na favela. Segundo Marlene Mendes, todos os moradores da Estrutural são trabalhadores e só querem um local para morar.
No final do conflito, quando o batalhão de choque da PM já se retirava do local, os moradores invadiram a pista da Via Estrutural e depredaram alguns carros. Dois veículos de emissoras de TV parados no local tiveram os vidros quebrados. Nessa hora, a PM retornou, mas os moradores recuaram evitando um novo confronto.


