Novo arcebispo critica manutenção do Real à custa de desemprego
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terça-feira, 09 de março de 1999
Por Biaggio Talento 
Salvador, 10 (AE) - A Igreja está preocupada com o fato de a preservação do Plano Real ser à custa de desemprego e do sofrimento ao povo, disse hoje o novo arcebispo de Salvador e primaz do Brasil, d. Geraldo Majella Agnelo. Na primeira entrevista coletiva na capital baiana, d. Geraldo inaugurou uma nova fase na Cúria de Salvador, respondendo a perguntas sobre a política e o governo, temas que o seu antecessor cardeal d. Lucas Moreira Neves, procurava evitar. O estilo lembrou o do cardeal Avelar Brandão Vilela, que comandou a Arquidiocese de Salvador antes de d.Lucas.
D.Geraldo disse acompanhar a crise brasileira desde quando estava em Roma, antes devoltar ao País. "Os jornais italianos publicaram com grande destaque durante uma semama, os problemas econômicos do Brasil", contou, assinalando sentir muita aflição por ver "periclitar" o Plano Real com o perigo da volta da inflação e o aumento do desemprego.
"A Igreja não tem alternativas para oferecer ao governo
mas queremos, em tudo o que se faça, o bem do homem e não de algumas instituições", disse. Conforme o arcebispo, o governo deve garantir trabalho para os brasileiros. "É um direito do homem poder sustentar-se com o seu próprio suor".
Ele insistiu não ter capacidade técnica para analisar o Plano Real, mas lembrou que a obrigação da Igreja é alertar que o homem "não pode ser relegado a segundo plano, deve ser o centro de tudo: trabalho, saúde e educação devem ser as grandes preocupações". Para o religioso, "não se pode proteger alguns particulares e interesses individuais nesse momento". Para o religioso, se não houver uma distribuição de renda justa tudo não passará de um paliativo, "que só serve a poucos". Segundo d. Geraldo, é "um escândalo" no Brasil um percentual tão pequeno da população possuir tanto e uma parcela grande, nada.
Mineiro, o bispo comentou a briga do presidente Fernando Henrique Cardoso com o governador de Minas Gerais, Itamar Franco. "É preocupante; gostaria que houvesse um entendimento entre os dois para um bom encaminhamento do Brasil", disse. Segundo d.Geraldo, todos os segmentos que tem sua parcela de importância nos destinos do País, precisam conduzir a situação atual com "grande responsabilidade".
O arcebispo chegou a admitir que esperava continuar no Vaticano. "Não podia imaginar vir para Salvador, depois de 21 anos de bispo e tendo comandado duas dioceses no Brasil", disse. "Quem sabe eu devesse ainda continuar lá (no Vaticano)". Mas, lembrou que os sacerdotes são soldados. "Nunca discuti nenhuma nomeação em 41 anos e meio de sacerdócio", disse sem negar a surpresa da escolha para comandar a Arquidiocese Primaz do Brasil.
Indagado sobre a atuação do padre Marcelo Rossi, disse que ele tem uma capacidade extraordinária de comunicação. "Todos gostariam de tê-la", observou, achando que a Igreja deveria ajudá-lo a reunir mais gente que se sente bem participando dos eventos. D.Geraldo não vê nada de mal nas danças e músicas do padre Marcelo. "Não se faz a fé só intelectualmente, há também sinais concretos para que a oração acompanhe o cristão", entende, citando que São Paulo, por exemplo, não escolhia lugar para anunciar o Evangelho.
D. Geraldo toma posse no posto de Arcebispo de Salvador, amanhã (11)à noite, na Catedral Basílica.


