Novo Anhagabaú manterá árvores, mas urbanistas apontam outros problemas


ISABELLA MENON
ISABELLA MENON

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O novo projeto do Vale do Anhangabaú, cuja reforma deve ser entregue em setembro, virou alvo de críticas após a divulgação de uma foto que mostra parte do vale sem árvores e cheio de concreto. É uma obra em curso, incompleta --e por isso as árvores ainda não foram transplantadas.

Segundo a prefeitura de São Paulo, haverá mais árvores do que antes, e as plantas precisam de um tempo para maturação.

Ao todo, 125 mudas já foram plantadas. Antes, segundo os profissionais envolvidos no processo, eram cerca de 420 árvores, e o atual projeto prevê 480. O verde ficará na lateral do vale, assim como as lojas, deixando o miolo para uma grande praça.



Urbanistas ouvidos pela reportagem, no entanto, apontam problemas de outra ordem. O principal é o alto preço da obra, R$ 94 milhões, R$ 14 milhões a mais do que o previsto inicialmente.

A implantação foi custeada pelo Fundurb, um fundo formado por recursos arrecadados via outorga onerosa (espécie de ágio que construtoras pagam à prefeitura para construir além do limite básico estabelecido) e gerido pela secretaria de Urbanismo para usos como implantação de equipamentos urbanos e habitação de interesse social. Segundo a prefeitura, o órgão tem cerca de R$ 1 bilhão em caixa.

É prevista a instalação de 850 jatos d'água, 1.500 assentos, bebedouros, sanitários, quiosques de comércio, floriculturas e uma ludoteca (estaçnao de jogos), além de mais de 350 pontos de iluminação.

O projeto contou com consultoria do escritório de arquitetura do dinamarquês Jan Gehl (doada pelo Itaú, em 2013) e foi criado na administração de Fernando Haddad (PT), mas começou a ser executado já com Bruno Covas (PSDB) na prefeitura. As obras foram iniciadas em 2019 e estavam previstas para junho deste ano, mas devido a pandemia houve um atraso de três meses.

Em entrevista por e-mail, David Sim, diretor criativo do escritório de Gehl, afirma que "os críticos precisam entender que grande parte de Anhangabaú é uma tampa sobre um túnel". "Essa parte deve ser de concreto --não pode ser permeável e nem ter árvores", diz.

"Estudamos os problemas de segurança e proteção, dificuldades para os pedestres, a gama limitada de usuários e atividades no local."

Outra crítica, a uma suposta falta de consulta pública, Sim rebate enumerando a realização de diversas oficinas, em que centenas de pessoas foram ouvidas.

"É preciso esperar acabar a obra", diz Mario Biselli, arquiteto responsável pelo desenvolvimento do projeto básico do Anhangabaú. Otimista, ele espera que após a primeira Virada Cultural ali as críticas cessem.

Biselli concorda com Fernando Haddad, que rebateu os argumentos em entrevista à coluna Painel, e afirmou que, com uma boa gestão, o Anhangabaú pode se tornar "uma nova avenida Paulista".

O arquiteto admite que a foto divulgada nas redes sociais dê a impressão de um lugar árido, mas lembra que os jatos d'água mudarão essa impressão, mantendo ainda um caminho para pedestres.

À frente do projeto desde o início das discussões, Luis Eduardo Brettas, arquiteto e urbanista da SP Urbanismo (empresa estadual vinculada à Secretaria de Desenvolvimento Urbano), analisa que, ao longo dos anos, o Anhangabaú se tornou "lugar inóspito". "Todos os imóveis no entorno se fecharam para o vale, era um lugar exclusivamente de passagem, não tinha nenhum contemplação."

Brettas defende o piso liso e cinzento, bastante criticado, afirmando que o antigo estava marcado por cicatrizes dos problemas de infraestrutura do local, como quebras para a manutenção da tubulação --algo que se tornará desnecessário, com a transferência das redes de telefonia e lógica para dentro de duas galerias.

Biselli, por sua vez, vê no piso um caminho para skates, bicicletas e saltos altos que enganchavam nas pedras portuguesas retiradas do local.

Danielle Klintowitz, coordenadora do Instituto Polis, discorda e aponta higienismo, algo que os responsáveis refutam. "Esse tipo de piso já diz simbolicamente quem é que eles querem atrair, tá evocando um espaço mais limpo e higienizado", diz. "Fala-se muito na revitalização do centro, mas o termo significa trazer vida novamente, ou seja, é como se as pessoas que lá habitam não tivessem valor."

Klintowitz vê um gasto supérfluo e enxerga no novo vale uma esplanada. "Isso não demonstra um espaço acolhedor, lembra Brasília que, mesmo com vegetação, não vai dar sombra, não vai trazer acolhimento."

Com ela concorda Guido Otero, arquiteto, urbanista e representante do IAB (Instituto de Arquitetos do Brasil). Ele analisa não era necessária o alto investimento "tendo em vista, principalmente, o número de problemas sociais que o centro enfrenta", citando a falta de habitações sociais na região.

Otero lembra ainda que o projeto apaga o anterior, fruto de um concurso público, em 1981, que contemplou a proposta dos arquitetos Jorge Wilheim, Jamil Kfouri e Rosa Grena Kliass.

David Sim diz que, em conversa com os aqruitetos do projeto anterior, o próprio Wilhelm foi claro sobre a necessidade de mudanças. "Ele reconheceu que o espaço antigo não estava funcionando e fez muitos comentários importantes."

A gestão será concedida à iniciativa privada, e a licitação está marcada para 26 de agosto, por dez anos. O vencedor será quem ofertar o maior valor de outorga, de no mínimo R$ 370 mil. A Prefeitura estima arrecadar R$ 39,8 milhões com a concessão.

Nabil Bonduki, professor da FAU-USP, chama a atenção para um ponto do edital de concessão que permite até seis eventos de acesso restrito por mês. "É privatização do espaço público", diz ele, que vê no prosseguimento da obra durante a pandemia de coronavírus "quase que um absurdo", pois o dinheiro poderia ter sido usado em questões mais urgentes como as da população de rua.



Bonduki questiona quem vai usar o espaço em meio à pandemia. "É um projeto cujo principal objetivo é aglomerar gente, mas quem vai fazer show ou usar aquelas fontes de água agora?"

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