Novo aliado contra o câncer de mama
PUBLICAÇÃO
sábado, 07 de abril de 2001
Líliam Rana e Mary Persia Agência Estado 
O câncer de mama é o que mais mata mulheres no Brasil. Para detectá-lo, a mulher precisa fazer frequentemente o auto-exame. O procedimento deve ser realizado principalmente na primeira semana após a menstruação. Diante do espelho, a mulher deve procurar, com os braços abaixados e depois levantados,
alterações no formato do seio, como caroços ou buracos, secreções e anomalias nos mamilos. O mesmo deve ser feito com a mulher deitada.
O auto-exame não substitui a ida ao consultório para o exame clínico das mamas, feito por um profissional de saúde, ou a mamografia. Esta última tem a vantagem de detectar nódulos que ainda não podem ser notados pelas mãos. Segundo recomendação do Inca, deve ser feita a cada três anos por mulheres com menos de 35 anos, a cada dois quando se está entre 35 e 39 anos, anualmente na casa dos quarenta e, entre 50 e 70 anos, semestralmente.
Dois encontros médicos internacionais, que aconteceram recentemente na Suíça e nos Estados Unidos, apresentaram os resultados de uma nova pesquisa realizada com combinação de drogas contra o câncer de mama. Em março, foi a vez do Brasil discutir esses resultados com cerca de 200 oncologistas brasileiros, no 1º Simpósio Pós-Saints, em São Paulo. A nova combinação dessas duas drogas está entre as melhores opções para o tratamento hoje, explica Artur Malzyner, oncologista clínico do Hospital Albert Einstein e diretor do Serviço de Oncologia Clínica do Hospital Brigadeiro de São Luiz.
O tipo de tratamento utilizado no combate ao câncer é de acordo com a análise do estágio da doença, que são três. Na doença precoce é feita uma cirurgia para retirada do tumor. No estágio intermediário, o câncer ainda está localizado em um único órgão, mas apresenta-se em estágio avançado. Na etapa mais avançada, os genes defeituosos já estão se ampliando e atingindo outros
órgãos, é a metástase.
No estudo, que envolveu 469 mulheres com câncer de mama avançado foi registrado um aumento de 24% na expectativa de vida das pacientes, a sobrevida. Os pesquisadores associaram uma das mais eficientes drogas quimioterápicas para o câncer de mama, o docetaxel, ao anticorpo monoclonal trastuzumab, uma espécie de proteína que atua no gene defeituoso. O benefício está na capacidade de reduzir o tumor, mas estamos falando de uma doença incurável, lembra Malzyner, ressaltando que o objetivo é o
aumento das chances de cura na quimioterapia pós-operatória.
A conclusão da pesquisa mostrou que poucos estudos sobre o câncer metastático tiveram uma vantagem de sobrevida desta forma. O trastuzumab aumentou o sucesso da quimioterapia sem causar mais efeitos tóxicos ao organismo, comenta André Murad, professor-doutor e coordenador da disciplina de Oncologia do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais. A droga é uma terapia inteligente, completa. Mais de 70% das pacientes tiveram o tamanho do tumor reduzido.
Enquanto o herceptin, nome comercial trastuzumab, bloqueia a
atividade do gene, o taxotere, como é conhecido o docetaxel no mercado, inibe a divisão das células cancerosas. Os taxanes, da classe de substâncias do docetaxel, têm se mostrado eficientes no combate ao câncer de mama, por meio da quimioterapia. Nos simpósios internacionais, os taxanes surgiram como o futuro promissor nessa luta.
A fase 2 das pesquisas envolveu 61 pacientes e indicou que a associação do taxotere e do herceptin reduziu o tumor em estágio avançado. Há uma redução de 50% nos pacientes com gene alterado, afirma Murad. Existe uma tabela que potencializa os índices elevados, mostrando o sucesso na pesquisa. Da mesma
forma do herceptin, que necessita de aplicação venosa e semanal, outro medicamento chamado iressa atua no mecanismo genético, com aplicação oral e de origem semisintética, mostrando resultados otimistas.
Uma das pacientes de Malzyner, Meire Nascimento(*), submeteu-se em 1994 a uma cirurgia para retirada de uma parte da mama afetada pelo tumor. Após exames, constatou-se que houve metástase. No ano passado, a paciente iniciou o tratamento com a combinação dos medicamentos e não tem mais sinais da doença.
Segundo Meire, ela nunca teve efeitos colaterais.
O oncologista clínico e diretor executivo do Hospital Sírio-libanês, Antonio Carlos Buzaid, acredita que essa combinação de medicamentos, depois da cirurgia, deve ser decisiva para o futuro de pacientes com doença mais agressiva.
Atualmente, o docetaxel também está sendo testado em fases mais iniciais do câncer de mama, conta Mário Alberto Costa, oncologista do Instituto Nacional do Câncer (Inca), do Rio de Janeiro.
Embora os resultados apresentados aumentem as expectativas de vida das pacientes, os especialistas ainda acreditam na prevenção como melhor remédio. O exame preventivo, de toque nos seios, recomendado às mulheres, é uma forma eficaz de diagnóstico precoce. Se o exame for periódico, ao encontrar um
nódulo, provavelmente a doença está num estágio inicial. Então, aumentam as chances de cura.
No ar há quatro meses, os comerciais da Campanha Nacional de Prevenção ao Câncer vêm tentar mudar esse quadro. Campanhas que têm a intenção de mudar o hábito das pessoas levam muito tempo para surtir efeito. E esta, com duração prevista de 15 meses, vai se prolongar conforme o apoio da sociedade, declara Daniel Deheinzelin, diretor clínico do Hospital do Câncer, salientando que tudo foi feito gratuitamente, da concepção das idéias à veiculação nas emissoras de TV.
A idéia central da campanha é combater o câncer de atitude comportamento que pode levar ao desenvolvimento da doença. As atitudes abordadas (vaidade, curandeirismo, preconceito, falta de tempo e estupidez) estão entre as principais responsáveis pelo aparecimento ou impossibilidade de cura da doença, que deve fazer quase 120 mil vítimas fatais no Brasil este ano.
Um em cada sete brasileiros morre em decorrência de tumores. Pele, mama, pulmão e próstata são alguns dos locais mais atingidos. Todos os tipos de comportamento abordados na campanha têm seus efeitos (negativos) a longo prazo. O câncer de vaidade, por exemplo, que diz respeito ao costume de manter o bronzeado em dia, não prejudicará seriamente a pele logo no dia seguinte, mas sim dali a vários anos.
E engana-se quem pensa que as pessoas com o organismo ou a pele fragilizadas, como os idosos, estão mais sujeitas à doença. A criança é a principal vítima. Os pais acham que estão fazendo um bem ao filho expondo-o aos raios solares, mas, dali a 20, 30 anos, ele pode ter câncer de pele. A doença aparece por causa do sol que você tomou há muito tempo, não devido ao sol que você tomou ontem, alerta Deheinzelin.
O mesmo serve para os jovens sarados que, para ficar com cara de saúde, passam o dia todo sob o sol. Um terço dos casos de câncer estimados para este ano no País devem acometer a pele.


