Novidade em transplante premia médico do PR
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quinta-feira, 30 de setembro de 2004
Maigue Gueths<br>Equipe da Folha 
Curitiba - Uma nova tecnologia de transplante de valvas cardíacas (estruturas pertencentes ao sistema circulatório e que funcionam como se fossem válvulas) pode aumentar a sobrevida de pelo menos metade das 20 mil pessoas que, anualmente, necessitam de transplante. Essa é a expectativa do médico Francisco Diniz Affonso da Costa, da Santa Casa de Misericórdia de Curitiba, e professor da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC/PR), que, junto com cientistas da Universidade de Humboldt, em Berlin, na Alemanha, receberam o prêmio de melhor trabalho experimental, no Congresso Europeu de Cirurgia Cardíaca, realizado no início deste mês, na Alemanha.
''Esse tipo de reconhecimento significa muito. Vários grupos no mundo estão tentando pesquisas nesse sentido, mas nós conseguimos bons resultados. Significa que nosso trabalho, em parceria do Brasil e Alemanha, está na frente'', destacou o médico. De acordo com ele, cerca de 700 trabalhos foram inscritos junto ao Congresso, sendo 120 aceitos para apresentação e apenas três receberam prêmios em três áreas distintas.
A novidade é a implantação da valva descelularizada, que permite o organismo do paciente repovoá-la com células de seu próprio corpo. A descoberta beneficia pacientes com doenças congênitas, reumáticas, degenerativas, e arteriosclerose, que levam à insuficiência das valvas cardíacas. No método tradicional, o paciente recebe transplante da valva de um coração doado e preservada em condições especiais. O problema é que essa técnica tem durabilidade limitada. Um homem de 65 anos, por exemplo, pode viver mais 20 anos. Já em uma criança ou jovem, que tem metabolismo mais acelerado, ela terá duração de cerca de 10 anos. Depois, é necessário trocar a válvula novamente.
''O organismo reconhece que as células da valva não são suas e faz um sutil ataque e as células morrem'', explica. Pensando nisso, desenvolveu-se o novo método. Antes de implantada, a valva passa por um processo de retirada total das células. ''Como o organismo reconhece através das células, ele não vê que se trata de um órgão estranho. Aí, as células do corpo vão invadindo o tecido para repopular a valva, agora com células do próprio corpo. Assim, essas células recuperam a valva, tornando-a viva de novo'', diz.
Há dois anos o método começou a ser usado na Santa Casa de Curitiba. ''Entre 25 a 30 pacientes implantaram a valva descelularizada e os resultados são brilhantes'', diz. Na Alemanha, cerca de 130 pacientes, nos últimos cinco anos, também passaram pelo processo. A única prova clínica do resultado foi verificada em um garoto, na Alemanha. Retirada uma amostra da valva oito meses após a cirurgia, quando o menino teve que ser operado para tratar outro problema, foi verificado que a valva, antes inerte, estava povoada.
A Santa Casa de Curitiba tem o único Banco de Homoenxertos Valvares do Brasil e recebe corações que não podem ser usados em transplante cardíaco de todo País, para extração das valvas. Desde 1995, o Banco processou um total de 2 mil valvas, sendo responsável pelo fornecimento de 1,3 mil valvas implantadas no País.
A partir do próximo ano, Francisco da Costa pretende dar mais um passo nessa pesquisa. A intenção é cultivar antecipadamente as células do paciente e implantá-las na valva antes do transplante. Desse modo, a pessoa já receberá um órgão totalmente vivo e sem risco de rejeição.


