NOVIDADE - Biologia molecular no combate ao câncer
PUBLICAÇÃO
domingo, 23 de outubro de 2005
Chiara Papali<br>Do Rio de Janeiro 
Biologia molecular. Essa é a ciência que promete revolucionar o diagnóstico e o tratamento do câncer. Mas ao mesmo tempo que pesquisas apontam novas tecnologias para combater a doença, o outro lado da moeda revela uma faceta ainda cruel - caros, os novos medicamentos podem ser inacessíveis para a maioria da população brasileira. Esse - e outros alertas - foram discutidos por médicos do Brasil e do exterior na última semana durante o 24º Congresso Brasileiro de Oncologia Clínica, no Rio de Janeiro.
A grande revolução da biologia molecular, explica o presidente da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC), Roberto Gil, é o reconhecimento das diferenças, fundamentalmente genéticas, entre as células afetadas pelo câncer e as normais. E a partir disso o desenvolvimento de medicamentos para atacar somente as células cancerosas, preservando as boas.
Alguns medicamentos já são comercializados, como o trastuzimabe, para o tratamento do câncer de mama, o bevacizumabe, para câncer de pulmão, intestino e mama, o cetuximabe, para câncer de cólon e tumores de cabeça e pescoço e o imatinibe, que revolucionou o tratamento da leucemia mielóide crônica. Nos Estados Unidos e Europa, a indústria farmacêutica trabalha no desenvolvimento de outras dezenas de compostos, com pesquisas em todas as fases, da pré-clínica à fase 3, quando os resultados das novas drogas são comparados com os tratamentos convencionais (leia texto nesta página).
A maior vantagem da nova estratégia terapêutica, método que também é chamado de alvoterapia, é a maior efetividade e a diminuição dos efeitos colaterais, já que os novos remédios atacam somente as células cancerosas, não as normais. Outro dos benefícios da biologia molecular, aponta o gerente médico da Pfizer, Maurício Mônaco, é fazer com que o diagnóstico de câncer deixe de ser uma sentença de morte. ''Hoje se conhece muito sobre câncer, mas ainda se intervém pouco na mortalidade. As taxas de sobrevida são iguais às da década de 50'', afirma.
Com o conhecimento de biologia molecular, explicam os oncologistas, as pesquisas são focadas no que acontece dentro das células tumorais. Através disso é que é possível determinar maneiras de bloquear o desenvolvimento dessas células. Segundo Mônaco é possível fazer isso por vários ''caminhos'', seja no bloqueio da atividade dos genes que participam do processo de formação dos tumores; no bloqueio de enzimas intracelulares, proteínas que participam da multiplicação das células; no bloqueio do ciclo celular ou na inibição de processos químicos que funcionam como cascata e permitem seu crescimento. ''Quando sei a rota, posso montar bloqueios para o que acontece na célula'', ressalta.
Mônaco explica, por exemplo, que os tumores secretam substâncias para ''pedir'' nutrição aos vasos sanguíneos, fazendo com que esses vasos sejam desviados na sua direção, o que, por sua vez, estimula ainda mais o tumor a crescer. No tratamento convencional, radio e quimioterapia, células tumorais e normais são atacadas de modo indistinto, causando efeitos como fadiga, diarréia, náusea, anemia, dermatites e estomatites. ''Já essa abordagem permite interferir só no ciclo celular do tumor'', explica.
* A jornalista viajou ao Rio de Janeiro a convite da Pfizer.


