Novela Elián muda de cenário e ganha novos personagens Do correspondente Paulo Sotero
Washington, 23 (AE) - Um dia depois de seu capítulo mais dramático, a novela em torno da custódia do menino cubano Elián González mudou de cenário e ganhou novos personagens hoje (23). Empenhados em tirar os dividendos possíveis políticos do caso, ou conter possíveis danos para suas carreiras e partidos, políticos republicanos e democratas entraram em cena em Washington para denunciar como "excessiva" e até mesmo "ilegal" a ação policial ordenada pela ministra da Justiça, Janet Reno, na madrugada de sábado, para remover Elián da casa de seu tio-avô, Lázaro González, no bairro de Little Havana, em Miami. O governador do Texas, George W. Bush, candidato republicano à Casa Branca, classificou a intervenção dos agentes federais a um ato de "terror". Seu rival democrata, o vice-presidente Albert Gore, que alienou apoio em seu próprio partido com suas desastradas tentativas de tirar vantagem política do caso, procurou distanciar-se da ação da administração da qual é um dos principais membros.
Altos funcionários do governo defenderam a ação dos oito agentes armados do Serviço de Naturalização e Imigração (INS) que participaram da operação, afirmando que a família não deixou nenhuma outra alternativa ao governo depois de semanas de tentativas infrutíferas das autoridades federais para negociar uma transferência pacífica do menino de 6 anos de idade para seu pai, Juan Miguel González, que chegou de Cuba há duas semanas para reclamar a custódia do filho. A mãe de Elián e nove outras pessoas morreram no naufrágio do barco em que tentavam chegar aos EUA, em novembro do ano passado. Elián e dois outros sobreviventes foram resgatados por pescadores, no Dia de Ação de Graças.
Com o menino alçado a objeto de adoração religiosa em Little Havana e transformado em símbolo e instrumento de uma batalha política sobre o futuro de Cuba tanto pelo regime de Fidel Castro como por seu arquiinimigos da comunidade cubana em Miami, o vice-líder da maioria republicana na Câmara de Representantes, Tom DeLay, disse hoje que a ação policial será investigada pelo Congresso e prometeu convocar Reno a explicar sua decisão em audiência pública, que deve começar esta semana.
"Pela primeira vez, uma agência governamental invadiu a casa de um cidadão sem ordem judicial", afirmou DeLay. "Tínhamos uma ordem de um juiz que disse que o governo estava agindo de maneira apropriada e tínhamos uma ordem do INS que dizia que a criança tinha que ser transferida (para seu pai)", respondeu o vice-secretário da Justiça, Eric Holder. "Fomos forçados a agir da forma como agimos pela intransigência da família (de Elián) em Miami", acrescentou.
Assessorados pela Fundação Nacional Cubana-Americana, o principal lobby anti-castrista nos EUA, Marileysis González, a prima de segundo grau de Elián que se autonomeou mãe substituta do menino nos últimos cinco meses, e seu pai, Lázaro, continuaram a alimentar hoje o lado mais melodramático da novela. Frustrados nas duas tentativas que fizeram no sábado de visitar Elián, supostamente para atestar que o menino estava bem na companhia de seu pai, numa casa de hóspedes na base aérea de Andrews, perto de Washington, os González de Miami deram hoje uma entrevista para atacar Reno e o presidente Bill Clinton e afirmar que Elián ficará traumatizado pelo resto da vida pela maneira como foi retirado de sua casa. Perguntada sobre a fotografia divulgada apenas algumas horas depois do episódio, na qual vê um Elián tranquilo e sorridente nos braços do pai, Marileysis disse que a foto não poderia ter sido tirada no sábado, porque o cabelo de Elián estava comprido demais, insinuando assim que o governo dos Estados Unidos teria participado de um ato de falsificação tipicamente empregado pelo regime de Fidel Castro para distorcer a realidade e justificar a remoção à força do menino de sua casa.
Com o enredo da novela enriquecido por teorias conspiratórias como essa, uma pesquisa de opinião CNN/Gallup confirmou hoje o que sondagens anteriores já haviam indicado: os americanos apoiaram a decisão de Reno de resolver a questão, embora tenham dúvidas quanto ao método utilizado. De acordo com a pesquisa, 57% (contra 37%) manifestaram-se a favor da reunião de Elián com seu pai e 59% (contra 27%) acham que ele deve voltar para Cuba se esta for a decisão de Juan Miguel. Mas 40% disseram que as autoridades usaram força excessiva para impor a lei, enquanto que 36% classificaram os meios utilizados como apropriado para as circunstâncias e 23% não emitiram opinião.
Esse aspecto da operação, capturado na imagem do policial de capacete e arma na mão no momento da remoção do Elián, dividiu também a grande imprensa. O Washington Post apoiou hoje a ação de Reno em seu editorial principal, enquanto o New York Times manifestou reserva ao método utilizado, afirmando que as autoridades deveriam ter dado mais tempo para se chegar a uma solução pacífica para o episódio - um episódio que deixou feridas profundas na comunidade cubana de Miami, revelou seu distanciamento em relação ao resto dos EUA e deve complicar ainda mais as já envenenadas relações entre não apenas Cuba e os EUA, mas também entre os cubanos separados pelo regime de Havana que vivem nos dois lados do estreito da Flórida.
Quanto a Elián e a seu pai - os personagens centrais do drama -, o plano hoje era de transferi-los para um local não revelado nos arredores de Washington, onde aguardarão as decisões judiciais pendentes, num processo que pode levar meses e chegar à Suprema Corte.





