Mais de 11 mil registros de nascimento foram emitidos no Paraná durante o mês de março, período em que foram constatados os primeiros casos do novo coronavírus no Estado. Em meio à pandemia, a movimentação nas maternidades segue intensa, agora com as equipes em alerta para evitar a propagação da doença entre grávidas e mães de recém-nascidos que passaram a fazer parte dos grupos de risco para Covid-19.

As visitas ao médico têm sido solitárias, já que o ideal é que as grávidas não levem acompanhantes para evitar aglomeração na sala de espera
As visitas ao médico têm sido solitárias, já que o ideal é que as grávidas não levem acompanhantes para evitar aglomeração na sala de espera | Foto: iStock

As consultas de pré-natal mudaram. Para mulheres que não apresentam gestação de risco, a recomendação é que as idas ao consultório sejam mais espaçadas, porém com monitoramento constante do estado de saúde por meio de telefonemas ou consultas virtuais. As visitas ao médico têm sido solitárias, já que o ideal é que as grávidas não levem acompanhantes para evitar aglomeração de pessoas na sala de espera.

“O que tem dificultado muito é que para fazer exames, por exemplo, como eu já tenho um filho de 3 anos, eu acabo tendo que tirar ele do isolamento em casa para deixar com a minha mãe ou com o meu marido que continua trabalhando. O isolamento ajuda e evitar o contágio, mas, por necessidade, às vezes a gente acaba se expondo ao risco. E caso a gestante tenha qualquer sintoma, sendo Covid-19 ou não, ela precisa ficar distante do bebê. Isso para mim é uma grande angústia. O mesmo com o meu filho mais velho. A gente é muito grudado. Quando você tem um cenário em que tem que ficar distante dos filhos, muda tudo”, contou a empresária Renata Tkotz Pauwels enquanto aguardava ansiosa a chegada da caçula Marina.

A chefe da Divisão da Atenção à Saúde da Mulher na Sesa (Secretaria de Estado da Saúde), Carolina Bolfe Poliquesi, explica que a transmissão da doença e o tratamento de acordo com os sintomas são semelhantes para a população em geral. A baixa imunidade e as mudanças no organismo durante a gestação estão entre os fatores que levaram à inclusão de grávidas e puérperas no grupo de risco.

"A Covid-19 é algo novo no mundo. Temos pesquisas novas a cada dia. Para essa população de gestantes, puérperas e recém-nascidos, as pesquisas têm um número reduzido de pessoas estudadas. O último protocolo referenciado amplia o grupo de risco para gestantes em qualquer idade gestacional e puérperas até 14 dias no pós-parto, incluindo mulheres que sofreram aborto ou óbito fetal. Essas mulheres podem desenvolver quadros mais graves da doença”, afirma. Gestantes de alto risco já eram consideradas do grupo de risco para o desenvolvimento da doença.

Poliquesi alerta que o pré-natal não deve ser suspenso e que as mulheres precisam ficar atentas a sintomas como febre maior que 37,8°C, tosse e dor de garganta. Nesses casos, é preciso procurar atendimento médico. Sinais como tontura, desidratação e falta de ar também exigem atenção. As equipes médicas podem aplicar o protocolo de tratamento de H1N1 em gestantes que apresentam sintomas do novo coronavírus, já que há demora na confirmação ou descarte da doença.

O local do parto deve ter o mínimo possível de pessoas para evitar o contágio. “É orientado que pelo menos se preserve um acompanhante previsto em lei, de escolha da mulher no pré-parto, parto e pós-parto imediato. Essa pessoa não pode ser do grupo de risco para Covid-19, não pode apresentar sintomas respiratórios e deve fazer uso das precauções para evitar a doença”, detalha.

A suspeita ou a confirmação do novo coronavírus de forma isolada não representa indicativo para cesárea. “Isso traria maior risco anestésico, cirúrgico, de maior tempo de internação, coisas que não são bem-vindas nesse momento, inclusive. A via de parto continua sendo obstétrica, baseada na condição materna, na idade gestacional e na condição do feto. É orientado que ela seja monitorada com mais frequência (batimentos cardiofetais, condição respiratória, frequência cardíaca da gestante e temperatura). A promoção ao parto normal e às boas práticas de assistência ao parto são universais, independentemente da Covid-19”, ressalta.

O aleitamento materno não deve ser interrompido mesmo com suspeita ou confirmação da doença. “A mulher precisa lavar bem as mãos, utilizar máscara enquanto amamenta o bebê e, nos intervalos das mamadas, deixar o bebê no berço a uma distância de, pelo menos, dois metros dela”, orienta. A nota técnica emitida pelo governo do Estado também sugere que, se possível, a mãe possa contar com a ajuda de uma pessoa saudável e sem sintomas para os demais cuidados com o bebê, já que o distanciamento se faz necessário. Não há orientações específicas sobre o tempo de permanência nos hospitais após o parto. Porém, independente do período, é importante garantir assistência às mulheres e aos recém-nascidos.

Em nota, o Ministério da Saúde não informou o número de casos já confirmados da doença em gestantes e puérperas. “O Ministério da Saúde esclarece que as evidências existentes na literatura internacional em relação às gestantes ainda não são suficientes para indicar consequências mais graves para as mães e bebês após infecção por coronavírus.” A assessoria frisou ainda que “as Diretrizes para Diagnóstico e Tratamento da Covid-19, publicadas pelo Ministério da Saúde, orientam não descartar a possibilidade de agravamento, tendo em vista a maior vulnerabilidade no desenvolvimento de infecções durante o período gestacional”.

Leitos isolados para gestantes com sintomas

Na Maternidade Municipal Lucilla Ballalai, em Londrina, há uma enfermaria separada para o atendimento às gestantes que apresentarem sintomas de síndrome respiratória. O gerente da Diretoria de Serviços Complementares em Saúde da Secretaria Municipal de Saúde, Eduardo Cristofoli, destaca que os profissionais seguem as normativas nacional e estadual.

Entre 16 de março e a manhã de 16 de abril, 257 bebês nasceram na maternidade municipal. Cristofoli, que atua como plantonista na unidade, ressalta que houve restrição nas visitas aos recém-nascidos. “Com menos visitas, você diminui tanto a exposição para o bebê quanto para a paciente que está ao lado. O mesmo vale para os acompanhantes. São condutas de saúde pública mesmo”, afirma.

Nas unidades básicas de saúde de Londrina, parte das consultas e atendimentos ambulatoriais permanece suspensa durante a pandemia. O pré-natal das gestantes, no entanto, é ofertado normalmente. Em algumas unidades, os locais de atendimento foram remanejados, já que há postos que passaram a atender exclusivamente pacientes com sintomas de dengue ou síndrome respiratória.

Pós-parto solitário

"As gestantes estão bem aflitas. Elas necessitam bastante de afeto, carinho e atenção. Isso as deixa bem ansiosas pelo fato de terem que ficar em casa, com medo, muita ansiedade e é muita responsabilidade cuidar de si e ainda de um bebê”, lembra a doula Letícia Duarte Neres.

Ela conta que foram necessárias adaptações para a atuação na hora do parto. "A nossa paramentação teve que mudar. A gente precisa usar máscara, luva, proteção nos sapatos. Antes, a gente levava vários equipamentos para dentro do hospital para ajudar as mulheres com métodos de alívio da dor. Agora, a gente só leva os que podem ser esterilizados, higienizados, nada de tecidos e de outros materiais para evitar ao máximo o risco de contágio”, explica.

A revisora de texto Letícia Ueno Bonomo é mãe do Joaquim que completou um mês no último dia 17 de abril. A chegada do primeiro filho contou com a ajuda da doula e a mãe foi surpreendida no hospital com o início das medidas de restrição para acompanhantes e visitantes.

"Durante a gravidez, não se falava tanto da Covid-19. A sensação que eu tenho é que quando eu entrei no hospital, o mundo virou. Foi quando começaram os casos confirmados. Lá no hospital, no dia em que ele nasceu, foi que eu soube que a partir do dia seguinte, as pessoas não poderiam mais receber visita. Depois soube que a doula só poderia participar do parto, não poderia visitar no dia seguinte e outras restrições. A gente só foi tomando consciência ali dentro do hospital de tudo o que estava acontecendo”, conta.

A primeira consulta com o pediatra foi por videochamada. Na semana seguinte, foi preciso ir ao consultório. “Quando a gente sai parece que está indo para a guerra. Tem um monte de protocolo para seguir”, afirma. Visitas rápidas dos avós só com máscaras e após todo o ritual de higienização.

"No começo foi mais desesperador. Tudo gera insegurança. Qualquer espirro era um medo e não ter um acompanhamento presencial faz diferença. A consultoria de amamentação é on-line. A gente está se adaptando. Grava vídeo, manda e vai fazendo como pode. [...] Na gravidez inteira, a gente ouviu sobre a importância da rede de apoio e isso faz diferença porque o emocional fica mais tranquilo quando tem pessoas próximas para conversar. Estamos vivendo dia de cada vez. Não sei se o que eu sinto é por causa do puerpério ou se é preocupação por causa da pandemia que gera muita angústia.”

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