Apesar dos avanços prometidos pela biologia molecular no combate ao câncer, o alto custo dos medicamentos pode dificultar a utilização em alta escala entre pacientes brasileiros. ''Se para o paciente do sistema público é difícil marcar uma mamografia, imagine ter acesso a um medicamento de ponta para o tratamento de câncer. O recurso que os pacientes têm tido hoje é entrar na Justiça'', alerta o presidente da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica, Roberto Gil.
Um exemplo é o trastuzimabe, já comercializado no País. Usado em conjunto com certo tipo de quimioterapia, reduz, comparado à quimioterapia tradicional, em 50% a possibilidade de recidiva do câncer de mama inicial. Mas o tratamento custa cerca de R$ 10 mil mensais, por pelo menos um ano, e o Sistema Único de Saúde (SUS) não utiliza esses medicamentos.
Para Gil, é preciso debater políticas que permitam a utilização dessa nova tecnologia no Brasil, como o aumento do orçamento destinado à saúde, redução de impostos para medicamentos, discussão com a indústria farmacêutica para redução das margens de lucro de determinados medicamentos e políticas de prevenção mais efetivas. ''No Brasil, a tributação de medicamentos é de 30%, enquanto nos países mais desenvolvidos é de 5%. No Brasil, menos de 8% do PIB (Produto Interno Bruto), ou R$ 91 bilhões anuais, é gasto com saúde, enquanto na Argentina são R$ 300 bilhões'', exemplifica.
Outro alerta do médico é a necessidade do diagnóstico precoce efetivo. Segundo Gil, o Brasil ainda falha nisso, principalmente dentro do SUS. Um exemplo, segundo o médico, são os exames de papanicolau, usados na detecção precoce do câncer de colo de útero, que ''muitas vezes são mal interpretados porque foram preparados inadequadamente''. ''Não tem como fazer o tratamento, se não se faz diagnóstico. Para quem tem a doença já em fase grave, os tratamentos são menos eficazes e mais dispendiosos'', ressalta.
Ele explica que ao aperfeiçoar os métodos de diagnóstico, com exames mais precisos, é possível também selecionar melhor os pacientes que devem utilizar os novos medicamentos. ''Pacientes nos quais a doença tenha características que permitam uma resposta positiva ao medicamento''. (C.P)

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