Novas favelas surgem ao redor do Cingapura
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sábado, 08 de abril de 2000
Por Maurício Moraes 
São Paulo, 09 (AE) - A expectativa de viver longe do cotidiano das favelas caiu no esquecimento para muitos dos 64.500 beneficiados, desde dezembro de 1994, pelo Projeto Cingapura. Criada pela Prefeitura de São Paulo, a iniciativa consiste em urbanizar áreas e construir prédios onde existiam barracos. Famílias passam a ter um endereço, além de contar com rede de água, luz e esgoto. Muitas, entretanto, assistem ao surgimento de favelas em torno dos novos complexos e continuam a conviver com traficantes e com o abandono.
A Favela do Morro nasceu ao lado do Cingapura Zaki Narchi, na zona norte, um dos mais antigos. Anos depois de terem desaparecido daquela região, as pequenas casas de madeira contrastam com os blocos de apartamentos. Muitas, próximas de córregos, correm o risco de desabar com as chuvas. "A favela surgiu depois dos prédios", disse um morador do projeto, que não se quis identificar com medo de represálias da Prefeitura.
Situação semelhante enfrentam os moradores do Cingapura Vila Maria, no Parque Novo Mundo (zona norte). Dezenas de barracos foram montados na beira de um córrego, ao lado dos edifícios. Próximo dali, no Cingapura Chácara Bela Vista, a ocupação ocorreu debaixo do Viaduto General Milton Tavares de Sousa. Com a construção do complexo, há cerca de quatro anos, sobraram 34 famílias em uma pequena favela sob a ponte. "Hoje, são cerca de 480", afirmou a moradora Maria Célia Benete Rosa.
A secretária municipal de Habitação, Antônia Aparecida Pereira, diz que a retirada dos barracos ao redor dos conjuntos é de responsabilidade das administrações regionais. Não há, entretanto, nenhum projeto na Prefeitura que ampare essas famílias. Tiros - A ação de traficantes de drogas no Cingapura tornou-se comum. No Vila Maria, em outubro de 1996, bandidos metralharam um carro de assistentes sociais que faziam visitas. "Hoje há problemas em Heliópolis", disse a superintendente de Habitação Popular, Denise Lopes de Souza. Segundo ela, traficantes costumam expulsar famílias de apartamentos para ocupá-los.
Depois da entrega dos conjuntos, o projeto prevê o acompanhamento das famílias por assistentes sociais durante, no máximo, três anos. A ausência das funcionárias após esse prazo é vista pelos moradores como abandono. "Tem pessoas despreparadas para morar aqui", disse Maria Célia Rosa, do Chácara Bela Vista. Em volta do local, lixo, entulho e mato. No mês passado, a Secretaria da Habitação determinou que as assistentes voltassem a fazer visitas periódicas nos prédios. O trabalho inclui traçar um panorama dos edifícios, onde há apartamentos abandonados.
Quem mora em um Cingapura tem de pagar prestações mensais de R$ 57,00. Boa parte fica devendo. Outros mudam-se. "Consideramos inadimplentes as famílias que deixaram de pagar no mínimo três parcelas consecutivas", informou a superintendente Denise. "Hoje, essa taxa chega a 58% dos moradores". À espera - A dona de casa Marli de Matos conseguiu, há um mês, mudar-se para um dos novos prédios do Cingapura Real Parque, na zona sul. Mas muitos ainda estão à espera de apartamentos. Dos 243 núcleos previstos, as obras atingem apenas 50 atualmente. Perto do Real Parque, em meio a ratos e baratas, 208 famílias esperam há mais de três anos e meio sua vez de ir para o conjunto.


