''Maconha fumava sua avó''. A frase, dita em tom de brincadeira, lembra o bordão de uma antiga propaganda na televisão. F.S., universitário, 19 anos, nunca experimentou maconha nem cocaína, as drogas mais consumidas no Brasil. Quando quer ficar ''ligado'', ele usa outro tipo de droga, um comprimido de anfetamina conhecido como ecstasy. F. diz que não é viciado: ''Só curto esse lance quando vou em alguma festa, nos fins de semana''.
O ecstasy é o mais conhecido de uma já extensa relação de drogas sintéticas cada vez mais consumidas no Brasil, principalmente por universitários. Fabricadas em laboratórios e em pequenas quantidades, essas drogas estão se multiplicando e ganhando mercado: ketamina, merla, DMT, ice, PCP, skunk, MDMA, cake e special K.
Algumas ainda são desconhecidas até da Polícia Federal (PF), que há dois meses fez a primeira apreensão de cake no Brasil. A quadrilha, presa no Rio de Janeiro, vendia drogas sintéticas em festas raves, boates de classe média e academias de ginástica. Os comprimidos, escondidos em potes de vitamina, eram trazidos de Amsterdã, na Holanda. A PF também encontrou com os traficantes uma pasta verde feita a partir de um anestésico usado em animais. É o cake. Nem a polícia conhecia a droga, que tem efeito mais forte do que a cocaína.
Várias drogas sintéticas são produzidas a partir de anestésicos animais. O special K, por exemplo, é feito à base de ketamina. Os anestésicos são comprados em lojas veterinárias e custam, em média, R$ 25,00 (frasco de 10 ml). Manipuladas em laboratórios, esse tipo de droga produz alucinações, delírios e perda das noções de tempo e espaço. O uso frequente causa distúrbios mentais graves e elevado grau de dependência.
De acordo com João Baptista Guerra, professor de farmacologia da Universidade Estadual de Londrina (UEL), ''a ketamina é uma anestésico dos bons''. Ela induz à imobilidade, amnésia e tem forte poder analgésico, ou seja, causa insensibilidade física. Para Guerra, a ketamina é a responsável pelo famoso golpe ''boa noite cinderela'', em que a droga é usada para dopar vítimas de estupro e assalto. ''Ela pode ser diluída numa bebida, tranquilamente'', diz.
As drogas sintéticas começaram a chamar a atenção no início da década de 80, quando um grupo de alunos de química da Universidade da Califórnia fez uma série de experiências com substâncias que excitam o sistema nervoso central. Eles descobriram que elas produziam uma sensação de euforia muito semelhante à provocada pela serotonina, um neurotransmissor produzido pelo corpo humano que atua diretamente no humor das pessoas.
As drogas podem ser divididas em dois grandes grupos: alcalóides (substâncias químicas de origem vegetal) e as anfetaminas, ou drogas sintéticas, que são produzidas em laboratórios. Entre os alcalóides mais conhecidos estão a morfina e a nicotina. ''A primeira é um anestésico importante que não pode faltar em nenhuma farmácia ou hospital. No entanto, a partir dela é feita a heroína, uma droga tremendamente agressiva'', explica Guerra. As anfetaminas são estimulantes. É o caso do ecstasy.
Como ainda há pouca informação disponível sobre as drogas sintéticas, muita gente acha que elas não viciam. Puro engano. ''Tanto os alcalóides como as anfetaminas causam dependência. Qualquer pessoa que use LSD ou ecstasy ou até mesmo um anestésico animal de forma contínua, vai ficar viciado. E a dependência é terrível, uma sensação de desespero. O termo usado é fissura e para vencer isso, só com ajuda médica'', alerta o professor.

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