São Paulo, 25 (AE) - A possível entrada de 3,6 mil novas emissoras de rádio no mercado pode significar a deterioração definitiva de um meio que já está saturado nas principais praças do País. Apesar de o governo federal garantir que o plano de licitações para novas concessões é de 20 anos, especialistas em mídia e empresários do setor temem que a disputa pelos acanhados investimentos em publicidade seja ainda mais selvagem.
O publicitário Antonio Rosa Neto, diretor da Dainet Multimídia e Comunicações e presidente do Grupo de Profissionais de Rádio (GPR), sugere que o governo volte sua atenção para incentivar a competição no mercado de televisão. Para ele, o rádio já está esgotado nas principais cidades. Rosa explica que as emissoras de rádio e TV dependem exclusivamente do que faturam em publicidade, mas há um abismo entre esses dois mercados. "As cinco redes de TV aberta faturaram R$ 3,8 bilhões em 1998, 60% do bolo publicitário, enquanto 3 mil rádios disputaram apenas R$ 278 milhões." Ele afirma que o meio já é pulverizado e não suporta mais competição. "Concordamos que novas emissoras sejam autorizadas a funcionar onde não há concorrência, mas essa situação não existe nas maiores cidades"
diz o presidente do GPR.
"Se o governo aprovar mais de 3 mil novas concessões, será o tiro de misericórdia no rádio", adverte João Lara Mesquita, diretor-executivo da Rádio Eldorado. Ele informa que a Eldorado teve de gastar US$ 250 mil para recuperar a qualidade da sua trasmissão, prejudicada pelas milhares de rádios piratas. "Com a regulamentação das comunitárias e com o avanço tecnológico, teremos um excesso de emissoras de rádio, mas é fundamental que o governo leve em consideração a viabilidade econômica."
Só os Estados Unidos têm mais rádios que o Brasil: são 11 mil emissoras que faturaram US$ 15 bilhões em publicidade em 1998, 10% do bolo publicitário. No Brasil, as rádios também detêm 4% dos investimentos, mas o total é bem menor: R$ 8,5 bilhões.
A omissão dos governantes na fiscalização das emissoras clandestinas e o abuso das concessões trocadas por favores políticos causaram muitos prejuízos às emissoras de rádio.Apesar desses graves problemas, Rosa afirma que uma pesquisa realizada em agosto, pela agência de publicidade Propeg, concluiu que o rádio tem 75% de ouvintes satisfeitos, ante 50% de aprovação dos telespectadores.
Licitação - A Assessoria do Ministério das Comunicações informa que o governo e a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) mapearam o País para verificar os canais disponíveis de FM. O estudo revelou que há a possibilidade de licitação para 3 6 mil canais de frequência modulada (FM). O ministério informa que os editais somente são publicados a partir de um determinado nível de demanda e exigem condições de viabilidade técnica e econômica.
O governo tem um plano básico de FM com 3.196 canais. Desse total, 1.375 estão em uso e 305 aguardam a definição das concorrências. As 3,6 mil novas concessões devem respeitar um limite por lotes que serão esgotados somente em 20 anos. A intenção das autoridades é a de tornar disponíveis dois lotes de até 120 canais por ano. Cada licitação leva aproximadamente um ano para terminar. Isso significa que, a cada ano, o mercado pode ter 120 novas emissoras no máximo e, nesse ritmo, não será desestruturado.
Francisco Paes de Barros, diretor-executivo da Rádio Nove de Julho, emissora da Igreja Católica em São Paulo, concorda com a opinião de muitos especialistas e publicitários: "O mercado do rádio é muito competitivo e novas concessões podem inviabilizá-lo."

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