Brasília, 28 (AE) - O economista Rubem Novaes, apontado como suposto negociador de informações privilegiadas obtidas junto ao Banco Central (BC) para instituições financeiras, afirmou hoje que o ex-presidente da instituição Francisco Lopes discutiu com o amigo Luís Augusto de Bragança, quando foi procurado para debater uma solução ao Banco Marka. "O Chico disse à ele que não admitiria que a amizade entre ambos fosse usada com aquele propósito", disse Novaes, durante depoimento à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Sistema Financeiro.
Ele também afirmou que o ex-controlador do Banco Marka, Salvatore Alberto Cacciola, lhe pediu socorro porque estava "desesperado e quebrado".
Segundo o economista, quando ocorreu a mudança cambial, Cacciola telefonou-lhe, dizendo que tentava localizar o economista Bragança, ex-sócio de Chico Lopes - àquela época, presidente do Banco Central - na empresa de consultoria econômica Macrométrica. Cacciola, segundo Novaes, queria apoio de Bragança para conseguir uma audiência com a diretoria do BC.
O banqueiro estava negociando com o BC e pleiteava comprar dólares a preços muito abaixo dos praticados pelo mercado.
Novaes contou à CPI que fez um apelo a Bragança, a quem conhecera também nos tempos de faculdade e no período de estudos de pós-graduação que fez em Chicago, nos Estados Unidos. O economista apelou a Bragança que fosse conversar com Cacciola "naquele momento de desespero", que aceitou se encontrar com o banqueiro. No encontro, lembrou, Cacciola expôs aos dois que precisava de apoio para "conseguir alternativas que evitassem a quebra" do Marka. Novaes informou aos senadores ter dito a Cacciola que "não contribuiria em termos de discussão interna" no BC, mas, mesmo assim, "viajou com ele e Luiz Bragança para Brasilia, num avião fretado".
Bragança, segundo Novaes, teria relutado em os acompanhar na viagem. "Tocados pela situação desesperadora, viemos com ele no avião", afirmou. O economista garantiu que, ao chegar à Brasília, ficou "entre uma e duas horas" no hangar da Líder Táxi Aéreo, negando ter ido ao Banco Central interceder por Cacciola junto à Francisco Lopes. Ainda segundo seu relato, voltou ao Rio de Janeiro em um vôo comercial, tomado no aeroporto internacional de Brasília.
Novaes confirmou que Bragança permaneceu em Brasília, atendendo ao apelo de Cacciola, que "estava com dificuldades em levar o problema do Banco Marka à alta direção" do BC. "Não tive qualquer interferência junto ao Banco Central na solução do problema", garantiu Novaes, que também informou aos integrantes da CPI que "nada foi cobrado" pela assessoria prestada ao banqueiro. "Nâo cobrei nada; foi um apelo desesperado de um amigo, a quem não poderia faltar", disse.
Novaes contou ter conhecido Chico Lopes, na década de 70
quando os dois foram professores na Fundação Getúlio Vargas (FGV), no Rio, mas que teria perdido contato com ele depois da transferência de Lopes para a Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Rio. Depois disso, acrescentou, ambos tiveram um único encontro profissional. O economista também confirmou conhecer o ex-controlador do banco Marka, Salvatore Alberto Cacciola, há mais de 30 anos, durante um curso preparatório para o vestibular. Rubem Novaes disse que ele e Cacciola cursaram universidades diferentes, mas mantiveram contatos esporádicos no período em que estudavam.
Esses contatos, lembrou Novaes, foram retomados quando Cacciola o convidou para ser consultor da então corretora Marka. O economista acabara de deixar a diretoria do Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico (BNDE). Novaes também informou aos senadores que, no período de 1985 a 1990, teve uma empresa de consultoria macroeconômica e prestava serviços para outras instituições. Em 1990, ele tornou-se diretor do Banco Primus.
Segundo o depoimento dele, um contato mais próximo com Cacciola só foi retomado em outubro de 1997, quando estourou a crise na ásia e ele recebeu novo convite do banqueiro, dessa vez para fazer um trabalho de consultoria sobre a economia brasileira e a possibilidade de contaminação da economia brasileira pela crise internacional, além de elaborar estratégias operacionais para um banco de investimentos, neste caso, o próprio Marka.

mockup