Nova York, 20 (AE) O prefeito Rudolph Giuliani anunciou neste fim de semana uma ofensiva policial para livrar a cidade dos sem-teto. A iniciativa veio depois que um mendigo deu uma tijolada na nuca de uma secretária, sem nenhum motivo aparente, no centro de Manhattan, na terça. A moça agoniza num hospital. Agora, sem teto dormindo na rua vai para um abrigo ou cadeia.
O ataque do mendigo, suspeito de ser um doente mental, mais uma vez obrigou a grande cidade a encarar os miseráveis que a prefeitura procura esconder a polícia vinha apenas usando a tática de enxotá-los das zonas nobres, ignorando protestos de entidades de direitos civis.
Mesmo com a economia americana no melhor momento de sua história, há 400 mil sem-teto nos EUA. Só na capital do mundo seriam 40 mil, metade deles entrando e saindo de abrigos públicos. Mais: a cidade tem 60 mil famintos.
De Manhattan ao Bronx, do Harlem ao East Side, quem alimenta essas bocas é a ong Coalisão Contra a Fome, composta por centenas de igrejas, sinagogas e mesquitas, mantidas por doações.
"Sem o sopão da coalizão, a cidade teria bolsões de gente subnutrida pelas ruas, como em Bangladesh", diz Jim Crowley, 48 anos, ativista do Movimento Contra a Fome, do East Village.
Até uma entidade brasileira, a Legião da Boa Vontade, alimenta os miseráveis do Primeiro Mundo. Seus voluntários atendem pobres nas escadarias das igrejas da Quinta Avenida, às quarta-feiras, só no jantar, porque durante o dia os mendigos são banidos da área pela polícia.
Nas ruas, os indigentes reforçam sua dieta como podem. O destaque na galeria de miseráveis vai para George, um imigrante grego de 64 anos, mendigo sem-teto. Ele vive com dois dálmatas. Às vezes, os três se alimentam do mesmo lixo.
George protagonizou uma cena repugnante, na semana passada, em Times Square, na Sétima Avenida, na hora do jantar. Ele abre um saco de lixo, na calçada. Encontra uma bela carcaça de peru. Arranca uns nacos. "É para os cachorros", diz, com ar constrangido. Olha a coxa, inteirinha e avalia: "Só como quando é alguma coisa muito boa".
Os indigentes nova-iorquinos têm o perfil universal: sem-teto, desempregados, idosos com pensões defasadas, drogados, doentes mentais. Maioria de negros e hispânicos. Seu diferencial são os imigrantes ilegais, gente que muito provavelmente já passava fome em seus países.
Os pobres passam sufoco mesmo com fartura ao seu redor: só o superávit da administração Clinton foi de US$ 122 bilhões no ano fiscal de 1998, encerrado em 30 de setembro. A prefeitura também vai muito bem, amparada pelos impostos de Wall Street mas parte do superávit dos dois governos é composto por cortes em programas assistenciais antes existentes.
Nas ruas, a maioria dos mendigos ganha um extra catando latas e garrafas, revendidas em supermercados. Há 15 mil idosos com teto, mas sem salário, recebendo comida grátis de voluntários. A prefeitura alimenta outras 38 mil pessoas. Seus albergues têm 10 mil vagas sempre ocupadas.
A miséria nova-iorquina tem um toque de classe. Os mendigos dão cinco estrelas para o sopão da Igreja da Trindade, honrando as tradições culinárias da cidade. Bob Texano", 48 anos, frequenta o lugar há 18: "Não troco por nenhum restaurante", avisa. Desempregado, vive no pedaço. "Nunca vou muito longe, tenho que estar perto da igreja na hora do almoço."
Durante o dia, Broadway, Quinta Avenida e Central Park são dos turistas, com os pobres quase invisíveis. Por exemplo, em 1998, 283 mil brasileiros visitaram a cidade dá média de 28 3 para cada mendigo. Como as chances de um encontro são remotas, o pessoal volta pensando que é o melhor dos mundos.
À noite, mendigos e catadores de lixo saem de esconderijos. Parecem locomotivas, puxando dois ou três carrinhos de supermercado, lotados de latas e garrafas. E, de novembro a fevereiro, com temperaturas abaixo de zero, todos procuram um canto quente para dormir.
Agora, ficou mais difícil arrumar esse cantinho. O prefeito Rudolph Giuliani disse que "numa cidade civilizada, as ruas não são lugar para dormir, as pessoas devem usar quartos".
Como os albergues públicos só têm vaga para metade dos sem-teto, como é que faz quem fica de fora ? "Nada como o metrô", ensina Carlos, dominicano, vestido com um casacão de lã esfarrapado, peça doada por um porteiro do Waldorf Astoria.
À noite, o truque dele é viajar sem destino
aproveitando a calefação do trem. "O duro é dormir sentado", queixa-se. É preciso: se deitar nos bancos, a polícia pega, bate e prende.
O mesmo vale para praças. Os turistas ficam intrigados ao perceber pessoas dormindo sentadas, com o tronco curvado sobre os joelhos? É o estilo local, porque estirar-se no banco dá cadeia. E não adianta tentar se esconder: a cidade tem quatro vezes mais policiais do que mendigos.
"Eu gostaria de dormir na estação Grand Central", diz uma negra de seus 25 anos, mendigando na porta de um restaurante, recém-chegada à cidade grande. "Você não sabe que lá não pode? Menina, os cops vão te expulsar", avisa um homem barbudo, 40 anos de sarjeta.
Pelas leis municipais, é proibido mendigar perto dos caixas-automáticos, bancos, trens, estações de metrô, escadarias de prédios públicos. Até mesmo na rua, estendendo a mão de forma agressiva. Qualquer cidadão que reclame tem a polícia do seu lado no ano passado, foram quase 70 mil reclamações, com 500 prisões.
A notícia da repressão aos que dormem na rua não surprende os veteranos. "Faz anos que estamos em guerra com a polícia, só agora que você sabe?", pergunta um senhor de 70, enrolado em cobertores, deitado sobre uma pilha de jornais, na praça Thompkins um dos poucos refúgios de mendigos tolerado pela polícia. Outro é a calçada na frente da ONU.
"Mudem-se para a periferia", ensina James Brown, 62 anos, toda vida como catador de lixo. "Estou em Astoria (bairro do Queens) desde 1990, a polícia nunca mais me incomodou."
A última da prefeitura é a moda da praçinha à prova de mendigos. Uma foi inaugurada na frente do Macys, na semana passada. Tem bancos, mesinhas, bebedouro, jardineiro e guarda. E um cartaz: "Proibido catar lixo". Parece para todos, mas tem endereço certo até hoje, nenhum turista foi preso chafurdando no lixo nova-iorquino.

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