Nova York (AE-REUTERS) - Uma injeção para prevenir o câncer? Vacinação contra doenças do coração? Imunização contra esclerose múltipla? Tudo pode ser possível se uma nova teoria da medicina estiver certa.
A idéia de que muitas das mais perigosas doenças podem ser causadas algumas vezes por infecções emergiu como uma das fronteiras mais provocativas da pesquisa médica. Cientistas dizem que esta teoria, se for verdadeira, pode ter um impacto tão profundo no modo como a medicina é praticada quanto o descobrimento da penicilina em 1928. "Isso abre as portas para muitos tipos de intervenção", disse o professor de biologia Paul Ewald, do Colégio Amherst, um dos propositores da idéia. Uma destas intervenções é uma vacinação contra a hepatite B, que seria ministrada a crianças junto com doses contra sarampo e cachumba, para prevenir o câncer no fígado. "As taxas de infecção (de hepatite B) caíram notavelmente em pessoas que tomaram a vacina", disse o doutor Siobhon OConnor, um pesquisador do Centro de Controle de Doenças e do Centro Nacional de Prevenção de Doenças Infecciosas. "Esperamos que as taxas de câncer no fígado também caiam, mas ainda é cedo para saber".
É sabido que algumas viroses podem causar câncer. O papiloma humano é a causa principal do câncer cervical, por exemplo. O que é mais radical é a idéia de que bactérias podem ser culpadas por doenças crônicas também. Cientistas descobriram que infecções podem estar entre as causas de doenças diversas como Mal de Alzheimer, esclerose múltipla, artrite reumatóide, desordens depressivas ou compulsivas, esquizofrenia, alguns tipos de câncer e doenças do coração.
"Logo podem surgir antibióticos para doenças do coração", disse Ewald, falando a respeito de um estudo publicado no Jornal da Associação Médica Americana neste mês que mostrou que pacientes com problemas no coração que foram tratados com certos antibióticos tiveram um risco menor de ataque cardíaco. Enquanto os cientistas avisaram que o estudo não garante que o uso de antibióticos seja uma medida preventiva, eles dizem que é parte de uma vertente crescente de pesquisa a relação entre micróbios e muitas das doenças que há muito tempo são atribuídas a fatores genéticos ou ambientais. "Mesmo se uma relação de causa e efeito entre infecções por bactérias e doenças do coração possa ser provada, seriam necessários muitos mais estudos para determinar se o tratamento com antibióticos pode reduzir o risco de ataques cardíacos", disse o doutor Valentin Fuster, presidente da Associação Americana do Coração e diretor do Instituto Cardiovascular da Escola Médica Mt. Sinai em Nova York.
O doutor Herschal Jick, um dos principais autores do estudo, concorda. "Se você tem uma proposição como essa, precisa de todos os tipos de estudos abordados através de diferentes pontos de vista para adicionar mais e mais evidências contra ou a favor", ele disse. Tais evidências podem também incluir dar germes para alguém e observar a doença se desenvolver. Enquanto os pesquisadores estão relutantes em recomendar uma tática tão dramática, engolir um frasco de germes foi exatamente o necessário para convencer a comunidade médica de que uma infecção era a causa de úlceras.
Um pesquisador notou 20 anos atrás que uma certa bactéria estava presente na maioria das regiões do estômago atingidas por úlceras. Um número de estudos clínicos começaram a aparecer em jornais médicos proeminentes no meio dos anos 80 apoiando a descoberta, mas os médicos continuaram a recomendar que seus pacientes apenas controlassem o nível de stress e evitassem o álcool, café e comidas condimentadas. Só depois que um dos pesquisadores originais ingeriu um frasco de Helicobacter pylori e desenvolveu uma dolorosa úlcera a teoria se tornou ciência estabelecida. Serão alguns bravos cientistas forçados a beber um copo de Chlamydia pneumonia, um dos tipos de bactéria ligadas às doenças do coração, para convencer o público? Provavelmente não, dizem os pesquisadores médicos, uma vez que os estudos estão agora sendo feitos de modo que possam mais tarde convencer os céticos.
Enquanto isso, diz Ewald, pode não ser muito cedo para começar a usar antibióticos como uma medida preventiva. "Por um lado, as pessoas estão um pouco tímidas. Que mal pode fazer usar um antibiótico se ele não tem efeito?". Muito mal, dizem outros cientistas. O uso indiscriminado de antibióticos já criou tipos de bactérias resistentes conhecidas como super-germes. Usar estes medicamentos como uma medida preventiva irá apenas alimentar este fenômeno e criar tipos mais resistentes de bactérias, eles argumentam. "Se uma maior resistência ocorrer, não poderemos mais usar estes antibióticos para tratar bactérias" , disse OConnor, adicionando que a penicilina não tem mais efeito contra muitas das bactérias que matava antes. "Se dermos antibióticos a grupos muito grandes de pessoas na esperança de prevenir doenças crônicas no futuro, então as chances de desenvolvimento de resistência a antibióticos irá aumentar", avisou OConnor.
A resistência a antibióticos não é a única preocupação. Pesquisadores notaram que a presença de bactérias em pacientes que tiveram ataques cardíacos pode indicar uma infecção secundária, e não causal. Em outras palavras, eles não estão certos de que a bactéria Chlamydia pneumonia presente nas artérias do coração de um paciente que teve um ataque cardíaco está apenas se aproveitando da situação ou provocando ela. O doutor Aaron Folsom, um epidemiologista cardiovascular da Universidade de Minnesota, advertiu que as recentes descobertas devem ser vistas como parte de um debate atual. "Ainda não estou convencido", disse ele. "As evidências até agora são circunstanciais". Folsom disse em um editorial que o estudo sobre o coração de Jick é obsoleto, prejudicado por uma falta de rigor científico em seu preparo. Ele pediu estudos mais experimentais, diferentes dos estudos observativos de Jick, que tenham mais controle e um grupo de placebo. Jick admite que estudos observativos como o seu "são sempre suspeitos", mas cita outros projetos de pesquisa que podem apoiar suas descobertas. Estes projetos são uma boa notícia para Ewald.
Um século atrás as taxas de mortalidade por diarréia e problemas respiratórios eram até mesmo mais dramáticas do que as taxas de mortalidade por doenças do coração e câncer. Se for descoberto que infecções bacteriais ou virais estão por trás das principais causas da mortalidade de hoje, então os cientistas poderão substancialmente diminuir as taxas de transmissão, se não erradicar as doenças.

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