Rio, 11 (AE) - Uma nova técnica cirúrgica poderá dar sobrevida a portadores de câncer do fígado, uma doença até então tida como terminal. A primeira experiência foi realizada há três semanas, com sucesso, pelo médico francês Henri Bismuth. Ontem, ele contou sua experiência no XV Congresso Brasileiro de Hepatologia, que acontece na cidade. A técnica, porém, ainda não tem previsão de ser utilizada no Brasil.
Segundo Bismuth, a nova cirurgia vai permitir que o tempo de espera na fila por um doador de fígado seja reduzido em 10%, na França. "Isso parece pouco", observou. "Mas com a falta crônica de doadores, no mudo todo, já é alguma coisa".
A técnica criada por Bismuth é, na verdade, uma conjugação de duas outras também desenvolvidas por ele. O que o médico descobriu é que é possível utilizar fígado de pessoas doentes para ajudar pacientes terminais. Os doentes, no caso, são os portadores de paraminoidose, uma doença genética provocada pelo fígado que passa a produzir o amilóide.
Essa substância provoca destruição do sistema nervoso e do sistema digestivo, além de atrofiar os pés. Quando o doente de paraminoidose recebe um fígado novo, o seu não é mais inutilizado. Ao contrário, é duplicado e pode ser transplantado em duas pessoas que sofrem de câncer do fígado. "Quando uma pessoa descobre que tem câncer no fígado, morre em no máximo seis meses", explicou o médico. "Com o fígado da pessoa doente
vai desenvolver a paraminoidose, mas em 15 anos", continuou. "Isso lhe dá uma sobrevida que lhe permite aguardar na fila por um fígado bom para realizar uma segunda operação".
O chefe do Serviço de Transplantes de Fígado da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Joaquim Ribeiro Filho, informou que essa nova cirurgia pode ser realizada "em breve" no Brasil, mas não há uma previsão para isso.
"Assim que aparecer na fila de operação um portador de paraminoidose poderemos fazer a experiência", explicou Ribeiro Filho. "Mas não é possível prever quando isso vai acontecer". Na UFRJ, 180 pacientes com paraminoidose estão sob acompanhamento médico.
Atualmente, existem 3 mil pessoas, no Brasil, à espera de uma doação de fígado. Cada uma delas espera de seis meses a um ano para realizar a operação. O custo dessa cirugia é praticamente o mesmo da convencional, cerca de U$ 50 mil. Na verdade, explicou Ribeiro Filho, acaba se tornando mais barata porque, de uma só vez, três pessoas são atendidas.
"Minha próxima meta é poder utilizar apenas metade de um fígado em um paciente com paraminoidose", afirmou Bismuth. "Com isso, as filas andarão ainda mais rápido porque de uma só vez, quatro pessoas poderão ser atendidas".

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