Nova procuradora de Haia é motivo de preocupação para Milosevic Do correspondente GILLES LAPOUGE
Paris, 12 (AE) - O presidente iugoslavo, Slobodan Milosevic, tem motivos para se preocupar: mal se livrou da terrível canadense, Louise Arbour, procuradora do Tribunal Penal Internacional de Haia, outra mulher assume o revezamento, a suíça Carla Del Ponte. E esta suíça será no mínimo tão franca e decidida na luta contra os criminosos de guerra quanto o foi a representante canadense até quarta-feira passada.
O Tribunal Penal Internacional de Haia foi criado em 1993, no pior momento da guerra na Bósnia-Herzegovina. Durante muito tempo, este tribunal foi apenas um "símbolo", uma simples ameaça para intimidar os dirigentes da ex-Iugoslávia ou de Ruanda. Mas era um "tigre de papel".Não tinha poder. Até o dia em que a canadense Louise Harbour chegou, em 1996. Então tudo mudou.
Louise Arbour concentrou sua luta não mais contra os executantes, mas contra os chefes, os responsáveis, inclusive chefes de Estado em exercício, como o sérvio Slobodan Milosevic, que o Tribunal acusou de promover um genocídio em Kosovo.
Infelizmente, o Tribunal Penal de Haia ainda não tem os meios para colocar em execução suas ordens. É por isso que Milosevic, indiciado em Haia, continua sempre chefe de Estado em Belgrado.
Será que a nomeação da suíça Carla Del Ponte irá acabar com a imunidade dos criminosos de guerra iugoslavos - Milosevic e também os líderes bósnios Radovan Karadzic ou Ratko Mladic?
(Os responsáveis por outro genocídio, o de Ruanda, foram capturados com mais facilidade porque foram entregues a Haia por outros Estados africanos, enquanto os líderes iugoslavos continuam sempre administrando os assuntos de seu pais e por isso desprezam com insolência as decisões de Haia).
A suíça Carla Del Ponte tem um temperamento forte. Procuradora, depois ministra federal, ela levou a cabo uma luta ferrenha contra a "máfia". Isso lhe trouxe alguns aborrecimentos. Em 1988, ela escapou de um atentado na Sicília. Na Suíça, ela só sai de casa escoltada por musculosos guarda-costas.
Contrariando todas as tradições helvéticas, Carla fala alto e claro.
Enquanto a Suíça lança um espesso véu sobre as questões de "lavagem de dinheiro" (porque é preciso evitar ofender os pobres bancos suíços...), Carla Del Ponte proclamou que 300 empresas suíças já estão infiltradas pela máfia russa.
Ela não tem medo de nada. Nem mesmo de realizar uma investigação sobre os negócios corruptos na Ucrânia e na Rússia. Nem mesmo de perseguir ex-membros da "junta" argentina, ou o irmão do ex- presidente mexicano Carlos Salinas, Raul.
Esta coragem, estes golpes espetaculares não agradam a todos.
Naturalmente, os mafiosos, que até agora eram muito bem tratados na Suíça, a detestam. Alguns suíços estão também desconfiados por causa de seu estilo vibrante. Eles criticam seus "anúncios",seus lirismos, seu gosto pelas encenações barulhentas, sua ambição desenfreada. E alguns bancos suíços não apreciam absolutamente esta pessoa sem papas na língua, que lança suspeitas sobre os gentis bancos de seu país.
(Na verdade, os bancos suíços são aliás um pouco injustos: Carla Del Ponte, apesar de seu caráter de aço, não se atreveu a arranhar o "sacrossanto sigilo bancário" que constitui o orgulho e a fortuna da Confederação Helvética).
Esta é a pessoa que assume o facho das mãos da canadenses Louise Arbour. Não tenham dúvidas de que ela irá perseguir Milosevic e seus cúmplices. E que ela fará tudo o que puder para conseguir da Otan e da ONU sua ajuda para prender os ditadores sanguinários - os de hoje e, esperamos, todos os que poderiam surgir amanhã.





