Washington, 12 (AE) - Exatamente uma década após a queda do Muro de Berlim, os líderes dos sete países mais ricos do mundo e a Rússia (G-8) se reunirão na Alemanha. Na pauta, estarão os desafios do milênio: o surgimento de uma nova doutrina de "intervenção humanitária" e a necessidade de exercer algum controle sobre fluxos de capitais.
Para o presidente americano, Bill Clinton, o encontro acontecerá num momento oportuno. O capitalismo e a democracia, valores defendidos pelos Estados Unidos durante meio século de guerra fria, demonstraram sua resistência.
O mundo sobreviveu à pior fase da crise financeira, desencadeada pela ásia em julho de 1997, sem questionar os princípios de mercado livre. E, após resistir a 11 semanas de bombardeios, o presidente da Iugoslávia, Slodoban Milosevic, cedeu às pressões do Ocidente.
Mas os desafios pela frente são muitos. Segundo o diretor de Estudos de Política Externa da Brookings Institution, Richard Haas, o maior deles será definir a nova doutrina de "intervenção humanitária".
Já existe um consenso entre os EUA e a Europa de que em certas circunstâncias - quando direitos humanos estão sendo violados por causa da atuação de um governo ou até por falta de uma política governamental - é preciso intervir. "O restante do mundo - Rússia, China e Índia, entre outros - vê isso como interferência em assuntos internos", disse Haas.
Segundo ele, caberá aos grandes jogadores definir as regras do jogo. Uma delas, ao que tudo indica, é que a nova doutrina se aplicará à Europa, mas não ao Cáucaso ou à ásia. Isso colocaria em risco relações essenciais, para a manutenção da estabilidade mundial.
A "intervenção humanitária" também está condicionada a outro elemento: o risco de vida. A vitória dos EUA e seus 18 aliados da Otan em Kosovo demonstrou que é possível ganhar uma guerra sem baixas. Na Guerra do Vietnã aconteceu o contrário: os americanos perderam vidas e a batalha militar e moral.
"Isso é ruim porque a realidade é outra", disse Haas. Segundo ele, os americanos ficaram acostumados a uma política externa "barata", sem riscos. E se, algum dia, o governo precisar empreender uma tarefa maior não conseguirá o apoio popular necessário.
Assessores do secretário americano de Defesa, William Cohen, têm outra opinião. Para eles, existe outra realidade militar. A prova não está apenas na vitória da Otan em Kosovo, como também no sucesso de um experimento que falhou diversas vezes: a interceptação de um míssil balístico. "Isso quer dizer que podemos controlar as ações dos demais com botões", disse uma fonte do Departamento de Defesa.
O novo estilo de guerra eletrônico tem seus custos: o da reconstrução das áreas destruídas. Não bastará integrar Kosovo. Será preciso também viabilizar um futuro para Macedônia, Albânia, Bulgária e Romênia, que arcaram com o ônus econômico da guerra.
Na área financeira, também existem questões a serem discutidas: entre elas a nova arquitetura mundial. Há um consenso de que o mundo não pode continuar dependendo de capitais de curto prazo. Esse tipo de investimento deveria sofrer maiores restrições que outros, de longo prazo.
O tipo de câmbio também está em discussão. Hoje, existem economistas que defendem o câmbio livre (adotado pelo Brasil) ou o currency board (da Argentina). Ao que tudo indica, falta apoio para um sistema intermediário. Mas ninguém, tampouco, tem a solução.
O objetivo de todos nessa reunião do G-8 é a estabilidade. Mas esse bem aparentemente é tão escasso hoje, quanto na época da guerra fria. Ou, quem sabe, mais escasso ainda.

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