Caracas, 14 (AE-AP) - Uma rixa com a Igreja católica e uma disputa com a Organização dos Estados Americanos não parecem diminuir as chances do presidente Hugo Chávez de conquistar uma avassaladora vitória amanhã (15) num referendo nacional sobre uma nova constituição.
Pesquisas mostraram que cerca de 70% dos votantes pretendem aprovar a constituição, apesar de advertências de adversários de Chávez de que ela é um projeto de um regime autoritário.
"É evidente que o sim irá prevalecer na votação", afirmou hoje Luis Vicente Leon, do instituto de pesquisa privado Datanalisis.
A constituição é a pedra fundamental de uma campanha de reformas radicais sendo liderada por Chávez, um ex-pára-quedista que chefiou um fracassado golpe de Estado em 1992 e que está agora esmagando o establishment político que governou a Venezuela por décadas.
O referendo provocou um virulento debate entre os pobres - que esperam que Chávez rompa o tradicional domínio domínio político dos partidos tradicionais - e a elite econômica - que teme que ele irá impor um regime comunista do estilo cubano.
Nos últimos dias, o altamente popular Chávez entrou em choque com a hierarquia da Igreja católica, acusando vários bispos e o ex-representante do Vaticano na Venezuela de se aliarem com a "oligarquia rançosa" do país.
Ele sugeriu que os padres deveriam se exorcizar já que "o demônio se agarrou em suas batinas".
O ex-núncio apostólico, cardeal Rosalio Castillo, reagiu comparando algumas das táticas de Chávez com as empregadas pelo ex-ditador italiano Benito Mussolini.
"Essas concentrações de massa, usando-as como instrumento de pressão, e essas brigadas de boinas vermelhas, são algo que foi visto nos tempos de Mussolini e de outros ditadores. Você não vê isso em regimes democráticos, mas em regimes comunistas, totalitários", afirmou hoje Castillo à Associated Press.
Chávez recentemente vestiu uniforme de combate para discursar para centenas de milhares de entusiasmados seguidores, muitos dos quais usavam a boina vermelha, marca registrada de Chávez.
Castillo acrescentou que a "violenta, agressiva" linguagem de Chávez parece visar a "aniquilação de seus adversários... Ele não quer qualquer tipo de oposição".
A administração Chávez também entrou em choque com a OEA, que enviou uma equipe para a Venezuela para acompanhar a votação desta quarta-feira.
Seu chefe, Santiago Murray, disse que Chávez tem usado dinheiro público para financiar a campanha do "sim", o que vai contra as leis venezuelanas. O ministro das Relações Exteriores Jose Vicente Rangel negou hoje as acusações de Murray.
A retórica de ódio parece estar favorecendo Chávez. Pesquisas mostram que o apoio ao voto "sim" está aumentando, aparentemente impulsionado pela percepção de muitos venezuelanos de que seus tradicionais políticos estão atolados em corrupção.
Membros da assembléia especial que escreveu a nova constituição do país informaram hoje que 42 juízes acusados de corrupção e incompetência estão sendo demitidos e outros 88 serão suspensos.
Se a nova constituição for aprovada, novas eleições - inclusive para presidente - serão realizadas no início do próximo ano - batalha que deverá ser vencida por Chávez.
A proposta de nova constituição também permite a Chávez permanecer no poder por 13 anos, já que prevê um período maior para o exercício da presidência e elimina a atual restrição de reeleição imediata.

mockup