Brasília, 20 (AE) - Um envelope de cor parda, lacrado, foi encontrado entre os documentos apreendidos pela Polícia Federal e representantes do Ministério Público na residência do ex-presidente do Banco Central Francisco Lopes na sexta-feira (16). No envelope, endereçado à Araci Benttes dos Santos Pugliese, companheira de Lopes, estava escrito apenas uma frase: "Para Ciça abrir se eu faltar". Os procuradores que apreenderam o documento abriram o envelope e encontraram uma declaração feita por Sérgio Luiz de Bragança, sócio de Araci na empresa Macrométrica, de que o ex-presidente do BC tem sob a sua custódia US$ 1,675 milhão.
O dinheiro de Francisco Lopes está depositado, segundo a declaração, nas contas que Sérgio Bragança tem no exterior. O sócio de Araci na Macrométrica informa que o dinheiro poderá ser sacado a qualquer momento e que, no caso de seu impedimento, o compromisso terá que ser honrado por quem venha a ser seu representante. Esclarece também que aquela declaração substitui outras feitas anteriormente "da mesma natureza".
A existência dessa declaração, datada de agosto de 1996, repercutiu hoje como uma bomba no Congresso. "Esta é uma denúncia muito grave e muito séria", disse o relator da CPI dos Bancos, senador João Alberto (PMDB-MA). O presidente do Senado, Antônio Carlos Magalhães (PFL-BA), disse que Francisco Lopes terá que explicar a carta encontrada em sua residência. "Eu tenho uma tese que é a seguinte: tudo o que se explica, é ruim"
observou Magalhães. O senador Eduardo Suplicy (PT-SP) se dizia triste. "Fico triste porque ele é um dos economistas mais importantes deste País", afirmou.
O presidente da CPI, senador Bello Parga (PFL-MA), disse que não ficou surpreso com a declaração encontrada, mesmo que seja sobre uma conta no exterior com dinheiro para o ex-presidente do Banco Central.
"Tenho sete décadas de vida e o comportamento humano não me causa mais surpresa", afirmou. "Tivemos coisas piores no Brasil, como foi o caso do ex-presidente Fernando Collor, que sofreu impeachment."
Em conversas com os jornalistas, alguns senadores levantaram a hipótese de que o dinheiro possa ser o pagamento da venda da participação de Francisco Lopes na empresa Macrométrica. Mas ninguém conseguia explicar por que o ex-presidente do BC deixou o dinheiro depositado em contas no exterior do ex-sócio. A hipótese mais favorável a Lopes, nessas conversas, ainda podia enquadrá-lo em crime fiscal: o depósito poderia ter sido feito no exterior para escapar do Imposto de Renda.
A seguir, a íntegra da declaração: "A quem possa interessar
eu, Sérgio Luiz de Bragança, venho declarar que Francisco Lafaiete de Pádua Lopes tem sob minha custódia US$ 1,675 milhão, depositado em minhas contas no exterior. Esse crédito pode ser exigido a qualquer momento e, no caso de meu impedimento, deve ser honrado por quem me venha representar. Esta declaração anula as outras declarações da mesma natureza feitas anteriormente. Sem mais, subscrevo-me abaixo. Sérgio Luiz de Bragança. Agosto de 1996."

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