Nostradamus, o poeta profanado que jamais previu o fim do mundo
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sexta-feira, 13 de agosto de 1999
Por Ruy Fabiano 
São Paulo, 14 (AE) - O aspecto mais interessante em torno da profecia de fim do mundo, que tomou conta da mídia mundial nas duas últimas semanas, é que ela jamais existiu. Michel de Nostradamus, o visionário francês do século 16, jamais a proferiu, tendo levado as profecias em torno da vida na Terra para além do ano 7 mil da Era Cristã.
Ora, como poderia prever o fim do mundo e, ao mesmo tempo, continuar a profetizá-lo por mais 5 mil e tantos anos adiante? O mais intrigante, no exame da recente paranóia que se produziu em torno do tema, é que a centúria de Nostradamus, invocada para dar respaldo ao boato, em nenhum momento o menciona, nem mesmo de forma alegórica.
A centúria 10, quadra 72, invocada pelos que anunciaram o fim do mundo, diz o seguinte:
"No ano de 1999, sete mês,/do céu virá um grande rei de assustar/ressuscitar o grande rei de Angolmois/ antes e depois de Marte/por boa sorte reinar."
Com o acréscimo de 14 dias ao calendário Juliano, em vigor no tempo de Nostradamus, o sétimo mês, em vez de julho, pode ser agosto, quando, dia 11, ocorreu o último eclipse solar total do milênio.
A associação, no entanto, entre o "grande rei de assustar", que viria no "sete mês", e o eclipse total do sol, já extrapola as centúrias de Nostradamus. Já é por conta de seus exegetas, que frequentemente erram em suas interpretações.
O "grande rei de Angolmois", segundo alguns intérpretes, seria Gengis Khan, o grande chefe militar, fundador do Império Mongol e conquistador da China, que viveu entre os séculos 12 e 13 , o que torna a previsão ainda mais hermética e distante dos dias atuais.
Os versos dessa centúria, como, de resto, todas as previsões do médico Michel de Notredame, nascido em Saint-Rémy de Provence, França, em 1503, prestam-se às mais variadas interpretações. E é fácil entender. Temeroso de levantar suspeitas de heresia junto à Inquisição, Nostradamus, de família judaica, convertida compulsoriamente ao catolicismo (o que o tornava sob suspeita permanente), optou por uma linguagem cifrada, arcaica mesmo para os padrões da época. O vocabulário mistura termos franceses, provençais, romanos, gregos, latinos e de outras línguas derivadas.
Há muitos versos que são simplesmente ininteligíveis, o que facilita a aplicação aos mais diversos contextos. Muitas vezes, ao longo da história, Nostradamus foi usado para fins de propaganda política. Em 1694, na França, a facção contrária ao cardeal Mazarin, eminência parda do rei Luiz 13, serviu-se de quadras de Nostradamus para prever (e prover) a queda e exílio.
Na Segunda Guerra Mundial, aliados e nazistas serviram-se fartamente do vidente provençal, falsificando-o com a mesma sem-cerimônia. O astrólogo suíço Karl Ernst Krafft, contratado pelo Departamento de Propaganda nazista, em Berlim, interpretou quadras de Nostradamus de acordo com os interesses estratégicos das forças do Reich. Os nazistas queriam desobstruir as estradas para Paris, quando invadissem a França, vindos de Sédan.
Krafft então fez circular panfletos, com quadras alteradas, indicando que, segundo Nostradamus, o Sudeste da França não seria perturbado pela guerra. Deu certo: ato contínuo
civis e refugiados correram para o sul, esvaziando as estradas para os Portos do Canal.
Os aliados deram o troco. A inteligência britânica conseguiu que os aviões da Real Força áerea jogassem sobre alguns países ocupados pelos nazistas folhetos com quadras de Nostradamus prevendo a derrota alemã. Esse expediente, segundo avaliação na época, serviu para manter acesa a chama da resistência nesses países.
Obra perdida - A partir de 1551, Nostradamus publicou, anualmente, almanaques e livros de predições, dos quais pouca coisa chegou ao nosso tempo. Tratavam de acontecimentos locais, ligados à agricultura, meteorologia e coisas afins. O sucesso dessas publicações fez com que surgissem numerosas outras, similares, muitas falsamente a ele atribuídas, o que contribuiu para o desgastar perante o público.
As profecias que chegaram aos dias de hoje e o tornaram notável através dos séculos foram publicadas em livro em 1555: "As Profecias de Michel de Nostradamus". O que o notabilizou em seu tempo foi uma profecia importante cuja concretização pôde testemunhar em carne e osso. Previu (e publicou essa previsão em 1554) que o rei Henrique II, da França, seria morto num torneio. A lança do adversário perfuraria seu olho através do elmo. A profecia consumou-se em 1559.
A rainha Catarina de Médicis, impressionada, manda chamá-lo a Paris e, desde então, torna-se sua protetora, preservando-o das suspeitas da Inquisição.
Voltando ao fim do mundo. O que Nostradamus previu para 1999 foi o início de guerras e turbulências, que se estenderiam até o ano de 2002, envolvendo toda a humanidade e provocando destruição e morte em larga escala. Não, porém, o fim do mundo.
Essas guerras (que os exegetas classificam de Terceira Guerra Mundial, muito embora essa terminologia inexista em Nostradamus), instauram o caos na Terra, submetendo a ordem social e política a profundas transformações, que se estendem até o ano de 2031.
O epicentro dos conflitos é sempre a Europa, que será invadida pelos povos muçulmanos e terá suas principais capitais (Paris, Roma, Londres) destruídas. Como se não bastasse, até o ano 2162, o planeta estará submetido a desequilíbrios ambientais gravíssimos, atingido por ondas de calor, tendo sempre por pano de fundo guerras generalizadas.
A batalha final entre o Bem e o Mal (o Armagedon bíblico) está previsto apenas para o ano de 2360, quando o planeta ficaria imerso em trevas e coberto por "uma poeira", que alguns exegetas acreditam radioativa. Somente a partir de 2400, diz Nostradamus, a humanidade se reencontra com a Luz e passa a viver sob os auspícios de uma nova era, de paz e prosperidade.
Os místicos - Não se deve cobrar dos místicos a responsabilidade pelos boatos e distorções a respeito do fim do mundo. Não foram eles que os propagaram. Ao contrário, consideram-nos nocivos ao equilíbrio das pessoas. As inúmeras seitas e escolas iniciáticas mundo afora sustentam, em sua maciça maioria, que o eclipse solar é o marco de um novo momento para a humanidade.
Não é o fim, mas o começo de um tempo novo, mais voltado para a espiritualidade, para o resgate dos valores ligados à fraternidade, muito embora seus efeitos não se façam notar do dia para a noite.
O que talvez tenha deflagrado o surto de paranóia foram lances isolados como o do costureiro espanhol radicado em Paris, Paco Rabanne. Ele convocou a imprensa para anunciar que estava fechando seu famoso atelier parisiense, um dos mais concorridos do planeta, em função de sonhos premonitórios sucessivos, relacionados com o eclipse e a profecia de Nostradamus.
Segundo seus sonhos, a França seria destruída. Outras seitas embarcaram nessa. Algumas literalmente, como é o caso da Energia Universal e Humana, na cidade espanhola de Aleixar, cujo líder Luong Mihn Dang construiu uma versão contemporânea da Arca de Noé, em cimento armado, prevendo novo dilúvio sobre a Terra.
Houve também os que, sem qualquer respaldo místico ou doutrinário, baseados apenas no noticiário da mídia ou em alguns goles a mais de aguardente, deram consequência prática aos boatos. É o caso do delegado Jorge Germiniano, da cadeia pública de Picuí, interior da Paraíba, que soltou os presos em nome do Apocalipse, e acabou demitido. E também do secretário de Administração do Piauí, Magno Pires, que decretou ponto facultativo para esperar o fim do mundo.
Malucos e excêntricos sempre existiram. E foi o ponto de vista deles que, neste momento, por razões de cunho apelativo, mais interessou à mídia nacional e mundial. Com isso, deixou de ser conhecido e aprofundado o ponto de vista dos místicos mais consequentes. E o que eles dizem? Que, além do eclipse solar, houve o alinhamento de quatro planetas, deixando a Terra no centro de uma cruz cósmica. Na horizontal, Saturno se opõe a Marte; na vertical, Urano fica diante do Sol e da Lua.
Os astrólogos identificam nessa conjunção um momento importante de exacerbação das emoções e aguçamento da sensibilidade, pela influência mais intensa que a Lua passa a exercer sobre a Terra. Isso, em tese, favorece a proliferação de conflitos. Daí a previsão de guerras, em consonância com as previsões de Nostradamus. Mas o alinhamento favorece também a religiosidade das pessoas, o que dá o contraponto e abre horizontes de otimismo e confiança.
Para quem acredita, é isso aí. Para quem não acredita, trata-se de um fenômeno puramente físico. Em qualquer das duas hipóteses, nada a ver com o fim do mundo e menos ainda com os versos enigmáticos do sempre profanado e jamais compreendido profeta Michel de Nostradamus.


