‘‘Nossa soberania dançou faz tempo’’
FolhaElas fazem isso no Brasil?
IanniSim, estão fazendo o mesmo no Brasil e o mesmo já fizeram no México. Então, estamos diante de uma globalização intensa, generalizada. As economias nacionais foram se comprometendo em nome dos ideais neoliberais, tipo reestruturação do Estado, custo mínimo, agilização, modernização, toda essa retórica. Estão abrindo e reabrindo os mercados nacionais para favorecer essas corporações. E o que acontece: o governo brasileiro está cada vez mais interessado em que o Congresso acelere as reformas para que esse mesmo governo tenha credibilidade junto ao FMI. Isso significa que a nossa soberania dançou faz tempo. E no Congresso os representantes do povo, muitas vezes sem ter clareza sobre o que essas reformas podem significar, acabam aceitando o jogo de troca de favores. Todos sabem que o governo faz favores para esses congressistas.
FolhaO senhor pode dar um exemplo concreto dessa incapacidade de resistência por parte dos governos?
IanniO Banco Mundial é quem está comandando a privatização do ensino do 1º, do 2º e do 3º graus no Brasil. Aos poucos, os setores da educação, da previdência e da saúde estão sendo privatizados, com o único objetivo de favorecer as corporações transnacionais, de modo direto e indireto.
FolhaEsses governos têm projetos nacionais?
IanniO quadro é tão alarmante que é difícil dizer hoje se países como Argentina, Brasil e México têm um projeto nacional. Se alguém perguntar aos presidentes desses países qual o projeto nacional para seus países eles certamente vão titubear para depois afirmar: o negócio é pôr a casa em ordem para que as corporações venham. Isto é gravíssimo e significa que esses países não têm mais soberania. Eu sou da geração que teve um projeto nacional, de verdade, pra valer, que foi o projeto populista, nacionalista, capitalismo nacional, Companhia Siderúrgica de Volta Redonda, Petrobrás, Eletrobrás, Vale do Rio do Doce, e tudo isto foi destroçado. Então, alguma coisa muito forte ocorreu na história das últimas décadas, uma história de destruição de projetos de capitalismo nacional, de socialismo nacional. O espetáculo da história é outro agora. É claro que esta visão é pessimista, mas ela é realista no sentido de que tem a ver com os dados da realidade.

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