''O efeito é rápido e poderoso. De repente, você sabe tudo, acha solução para tudo. A gente enxerga as coisas num tom muito mais forte, fica tudo mais bonito, você sente prazer em enxergar. Todos os sentidos ficam à flor da pele. É uma sensação muito boa''. Usuário de drogas desde a adolescência, Antônio (nome fictício) descreve uma ''viagem'' com ácido, o LSD. Ele também fuma maconha e cheira cocaína. ''A cocaína te dá excitação, você sente vontade de beber porque ela te deixa acelerado demais. Já a maconha é calmante, é uma droga reflexiva'', detalha.
Consciente dos prejuízos que as drogas causam para o organismo, Antônio reconhece que elas deveriam ter outro propósito: ''Drogas certas nas mãos erradas. Esse é o problema. As drogas não são ruins; a maconha é calmante, a cocaína é um anestésico, usado antigamente até em tratamentos dentários. O lança-perfume, vendido livremente até a década de 60, era um aromatizante de ambientes. Isso sem contar a cola de sapateiro, o tinner, fluído de isqueiro, benzina, a pinga, o uísque, o cigarro. Tem também as boletas, esses remédios pra emagrecer que causam dependência. Tudo é droga, depende de como se usa cada substância'', analisa. ''A criminalização é uma bobagem. Nós somos a raça mais imbecil do mundo. Pagamos os outros pra nos dizerem o que podemos beber, cheirar, comer e fazer''.
Além da dependência, segundo Antônio, a depressão e as crises de abstinência são o ''outro lado'' das drogas: ''Enquanto a gente está sob o efeito da droga, é uma beleza. Depois vem aquela sensação de estar voltando, na marra, para a realidade. Na cocaína a depressão é ainda pior porque como a gente bebe muito álcool, quando passa a excitação a gente fica depressivo mesmo'', reconhece.
Para o professor João Baptista Guerra, alternar constantemente estados de excitação e depressão acaba causando prejuízos permanentes no organismo: ''Toda vez que o sistema nervoso central é excitado ele responde, e depois vem o esgotamento de vários neurotransmissores centrais. O usuário de droga acaba ficando de 'miolo mole'. Essa expressão é muito adequada porque descreve os efeitos que a droga vai causando. A pessoa não terá mais a mesma capacidade de aprendizado, de memória, inclusive de desempenho sexual. Chega um momento em que o sistema nervoso central não consegue mais gerenciar nem o controle de funções viscerais, como respiração, circulação e batimentos cardíacos. Daí, é a morte. Foi isso que aconteceu com a Elis Regina''.
O professor também faz um outro alerta: no caso de alguns ácidos como o LSD, existe um fenômeno chamado de ''flash back'', que faz com que as alucinações provocadas pela droga ocorram mesmo quando o usuário já não está mais sob o efeito da substância: ''A pessoa pode ter deixado de se drogar há meses. De repente, um dia, sem nenhum aviso, as alucinações aparecem. Já pensou no que isso pode causar?'' (P.F.)

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