Nos EUA não há reis, há líderes de campanha.
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sexta-feira, 19 de março de 1999
Por Howard Fineman, da Newsweek 
Washington, 20 (AE-NEWSWEEK) - Supostamente predestinados, George W. Bush e Al Gore estão obtendo doações vultosas e endossos importantes. Mas conquistar a Casa Branca pode não ser assim tão fácil - e eles sabem disso.
Nos Estados Unidos não há reis. Há líderes da campanha eleitoral e, atualmente, George W. Bush está usando a coroa. O Tudor criado no Texas mantém sua corte em Austin, onde delegações de legisladores republicanos chegam em grandes levas para dar-lhe endosso, na mansão branca e cor-de-tijolo. Na semana passada, Bush reuniu-se com um grupo das Carolinas para o almoço, percorreu a mansão com seus integrantes (ele gosta de mostrar o retrato de Davy Crockett) e acampanhou-os ao pátio pavimentado com pedras arredondadas, onde cumprimentou a imprensa.
Nesse ínterim, na cidade de Nova York, o vice-presidente Al Gore fez verdadeiro progresso entre os homens de dinheiro. Na sua primeira viagem com fins de arrecadação de fundos para a campanha presidencial, Gore foi homenageado com festas em três lugares, em três horas: por negros da indústria de entretenimento, por milionários (millionerds) da área de alta tecnologia e por operadores de Wall Street no luxuoso apartamento de Steve Rattner, executivo da empresa Lazard Frres.
Até o momento de voltar ao Air Force Two ele havia angariado nada menos que US$ 1,5 milhão.
Mas os líderes da competição não parecem tão reais quando vestem suas camisas Woolrich para as viagens obrigatórias a New Hampshire.
Eles tendem a parecer mortais em, digamos, Concord. No Granite State House (o edifício do Congresso Estadual), os políticos vêem suas amadas eleições primárias como o Passo Kyber da política presidencial. No decorrer dos anos, caravanas de candidaturas "inevitáveis" têm sido afetadas por pessoas como a deputada Fran Wendelboe. Ela é pró-vida, conectada à Internet e era a única a usar o button da campanha 2000 na Câmara na semana passada. Era um button grande, vermelho, a favor de Elizabeth Dole: "Bush é bom, mas Liddy é a melhor candidata."
No café, situado no andar de baixo, o ex-presidente do Partido Democrata tem palavras de advertência amistosa para Gore. "Ele não poderá concorrer se não assumir uma linha mais clara", disse Jeffrey Woodburn. "Ele tem de correr alguns riscos."
Agora que Monica é mercadoria e os ex-assessores de Clinton estão se tornando escritores, a campanha 2000 está ganhando vida. Bush e Gore são os favoritos para obter a indicação dos respectivos partidos e liderar confortavelmente as eleições prévias nacionais. O Partido Republicano anseia por um candidato charmoso, para suplantar a sombria imagem dos republicanos do Congresso - e Bush tem a aparência adequada.
Quanto a Gore, ele só tem um oponente - o ex-senador Bill Bradley - e a indicação nunca foi negada a um vice-presidente em exercício quando ele a buscou seriamente. Assim, a história da competição do ano 2000 será uma história de filhos famosos ascendendo - ou dando um passo em falso?
Desta vez, o fato de ser líder na competição é mais benéfico - e mais arriscado. Os endossos do partido significam menos do que nunca, e a participação dos eleitores "independentes" continua a aumentar nas primárias, especialmente em New Hampshire. Mas a principal razão pela qual a posição de liderança é arriscada é o esquema da campanha do ano 2000. No próximo ano, dois terços dos delegados serão escolhidos em uma arremetida de quatro semanas, que começará em Iowa e New Hampshire e chegará ao auge um mês depois, com uma eleição primária "nacional" que se estenderá da Califórnia ao Texas e da Flórida a Nova York.
Para concorrer em âmbito nacional e em todos os lugares de uma vez, os candidatos precisarão arrecadar fundos antecipadamente - uma vantagem para Bush e Gore e para o bilionário Steve Forbes.
Mas, sobrecarregados pelas expectativas, os líderes políticos poderão fazer tudo explodir em um minuto - sem que haja tempo para recuperação - se eles perderem as primeiras eleições importantes.
"Bush e Gore não sabem se estão construindo um reator nuclear ou uma bomba atômica", declarou Mike Murphy, consultor de mídia do Partido Republicano. "Se sua mensagem de candidato for: Vote em mim porque vou vencer, ele vencerá." Há vantagens em ser o líder na disputa, e é possível usar tais vantagens. Isso porque os números, em termos nacionais, parecem bons. Na mais recente pesquisa da Newsweek, Bush tem uma grande liderança de 46% - 20 pontos porcentuais a mais do que sua concorrente mais próxima, Elizabeh Dole - e supera Gore em uma competição entre os dois por 57% a 36%. Esses números ajudam a conquistar mais confiança - e mais dinheiro.
Esperava-se que Bush desse um grande passo à frente anunciando a criação de uma comissão "exploratória", com uma relação de nomes cuidadosamente equilibrada (três mulheres, duas negras e uma hispânica), e esperanças fundamentadas de arrecadar entre US$ 25 milhões e US$ 30 milhões.
Os líderes da competição podem fazer notícia, ou entrar na história de outras pessoas. A incursão de Gore na cidade de Nova York coincidiu com a primeira grande arrecadação de fundos de Bradley. O anúncio de Bush dominou as notícias da semana sobre o debute de seus rivais.
Pat Buchanan surpreendeu os ativistas conservadores com uma nova iniciativa. Elizabeth Dole, agindo rapidamente depois de um início instável, decidiu criar sua comissão exploratoria, indo ao ar com anúncios em Iowa e New Hampshire (o anúncio não contém nenhuma alusão ao seu marido, o ex-senador Bob Dole). Lamar Alexander anunciou sua segunda candidatura à indicação.
New Hampshire é o lugar certo para os desafiantes derrubarem campanhas exageradamente confiantes, com excesso de pessoal, e fora de contato com a realidade - como Bush e Gore sabem muito bem. Em 1992, o comentarista de televisão camicase Buchanan obteve 37% dos votos do Partido Republicano nas eleiçoes primárias de New Hampshire, contra o presidente George Bush, expondo os pontos fracos que Bill Clinton exploraria mais tarde.
Agora Buchanan está de volta. O Bush mais jovem não está bem preparado, ao menos por enquanto, para a investida. Ele ainda não esteve em New Hamphire como aspirante à indicação, não deverá chegar a ser um deles antes do verão americano, e conta com uma organização muito pequena em campo.
Ele depende principalmente da rede de seu pai, que está envelhecendo rapidamente e, em muitos casos, tem base fora do Estado. Ele tampouco poderá depender do governador local, como fez seu pai em 1988.
Naquele ano, o então governador John Sununu moveu céus e terras - e votos suficientes - para ajudar George Bush, o pai, a obter a indicação partidária. Desta vez, os democratas detêm o cargo de governador e Sununu, que teve um desentendimento com o clã Bush, está trabalhando para Dan Quayle.
Gore também conhece história muito bem, especialmente a história de 1984. Naquele ano, um ex-vice-presidente democrata muito apreciado, embora sem grande brilho - Walter Mondale -, foi derrotado por um senador inteligente e um tanto distante e rebelde, Gary Hart.
Um paralelo entre a competição Al Gore-Bill Bradley não deixa de ser adequado. Principalmente no que se refere a Gore, que recentemente discutiu o assunto longamente com a governadora estadual democrata Jeanne Shaheen (que ironicamente lançou sua carreira liderando a cruzada de Hart). Gore terá o apoio de Shaheen, organizadora meticulosa e inteligente, e conta com o apoio de Clinton, que continua a trabalhar o Estado como se ele próprio estivesse concorrendo ao cargo de xerife.
Mas os partidários de Gore estão preocupados, o que é compreensível. Isso porque Bradley - no papel - é um candidato de New Hampshire perfeito: insensível, sério e inclinado a fazer julgamentos morais.
Ele pode estabelecer residência no Estado, e fez isso. Os partidários de Gore queixam-se de uma situação que inesperadamente se converteu em uma competição entre dois homens. Se algo imprevisto acontecer - uma falha do computador do tipo Y2K (como é conhecido o bug do milênio), o eventual colapso do mercado, novas revelações atordoantes sobre o mau procedimento de Clinton - haverá apenas um beneficiário: Bradley.
Para tristeza dos eleitores de Gore, as autoridades do Partido Democrata decidiram organizar um jantar em abril, e Bradley aceitou o convite imediatamente. Segundo apurou a Newsweek, Gore também foi convidado, mas presume-se que não comparecerá. Em vez disso ele será visto em salas de visitas, participando de três reuniões para tomar café e conversar à noite, em apenas um sábado, no fim deste mês.
A atenção é algo muito bom, e pode transformar-se em algo bom demais. Gore é uma quantidade conhecida, mas a competição está prestes a definir-se, antes que o próprio Bush se defina. O presidente do partido, Jim Nicholson, pediu civilidade na competição do Partido Republicano, em pronunciamento recente, que foi amplamente interpretado como sendo destinado a proteger Bush. George Bush é do tipo emotivo, e seus inimigos tentarão fazê-lo explodir. Buchanan, a quem a família Bush detesta genuinamente, o atacará, afirmando que ele é mais um ornamento da escola preparatória do establishment. Os aliados de Forbes criticarão o acordo do ex- presidente relativo ao orçamento, esperando provocar uma resposta indignada do filho de Bush. Alexander já disse que a retórica de Bush é cheia de rodeios e recebeu com desprezo a idéia de organização de um "chá" do Partido Republicano no próximo ano.
Mas o que eles querem no Granite State? Em Washington, os líderes do Partido Republicano querem uma trégua na guerra da cultura. Mas em New Hampshire, onde a economia está em boa forma e a aversão aos impostos está desaparecendo, em vista de uma ordem do tribunal de recolher dinheiro para as escolas, os republicanos afirmam que as questões principais serão as morais.
"Após o caso Monica, acredito que a liderança moral será a questão número 1", declarou o presidente estadual do Partido Republicano, Steve Duprey.
De acordo com a governadora Shaheen, os eleitores americanos querem que os candidatos apresentem uma "visão irresistível". Até aqui ela não ouviu nada desse tipo dos participantes da competição - nem mesmo dos seus líderes.


