Norte-americanos tentam escolher seus vizinhos
PUBLICAÇÃO
sábado, 22 de agosto de 1998
Vaguinaldo Marinheiro Agência Folha 
Como o Brasil ainda está assustado com o maníaco do parque, essa reportagem poderia ser um Você Decide.
Pergunta 1 - Você acha que molestadores sexuais merecem uma segunda chance após cumprir pena de prisão?
Pergunta 2 - Você acha que moradores de uma rua têm o direito de escolher quem vai morar nela?
Norte-americanos de uma cidade do Oregon (costa oeste dos Estados Unidos) responderam não para a primeira pergunta e sim para a segunda. Eles compraram um casa na cidade de Dilley para impedir que Jonathan Hawes, solto terça-feira passada após passar cinco anos presos por abusar sexualmente de duas meninas de 10 anos, fosse morar nela. Antes disso, ameaçaram matar o ex-preso ou incendiar a casa. Depois das ameaças, Wendy Brewton, mãe de Hawes e proprietária do imóvel, resolveu vendê-la por US$ 250 mil.
O caso mostra duas características dos americanos: que eles estão cada vez mais se organizando em associações de vizinhos para combater a criminalidade (o que é considerado positivo) e que o medo da violência está fazendo com que eles sejam preconceituosas e segregacionistas.
Muitas comunidades preferem prisão perpétua para molestadores de crianças a que eles vivam na mesma comunidade, disse Lawrence Sherman, professor do Departamento de Criminologia da Universidade de Maryland, que estuda violência e comunidade nos Estados Unidos.
As comunidades têm um certo apoio da Justiça. Em 36 Estados norte-americanos, a polícia é obrigada a notificar os moradores de um bairro quando presos que cumpriram penas por molestamento sexual estão sendo soltos e se mudando para o bairro.
As leis começaram a aparecer em 1994 quando uma menina de New Jersey de 7 anos foi estuprada e morta por um vizinho que havia sido solto após cumprir pena por abuso sexual. Essas leis têm provocado um aumento no número de violência contra os ex-presidiários e não dá para saber se causou alguma diminuição no número de abusos sexuais, disse Sherman. Ele acredita que as leis antiviolência deveriam ser tratadas como os remédios no país. Esse tipo de lei só deveria entrar em vigor depois que fosse comprovada sua eficácia e segurança. Mas não seria preconceito acreditar que uma pessoa que abusou sexualmente de uma criança vá fazer isso de novo? Os moradores de Dilley acham que não.


