Nordeste terá
‘‘barragens
subterrâneas’’
Ministro adota solução de ONG e anuncia construção de cem mil unidades
Agência Folha
O ministro Raul Jungmann (Reforma Agrária) afirmou ontem que o governo vai utilizar mão-de-obra das frentes de trabalho para instalar no Nordeste cem mil ‘‘barragens subterrâneas’’. Essas pequenas ‘‘barragens’’ são construídas de forma rudimentar no leito dos rios, que só têm água dois meses por ano. O método, considerado alternativo e barato de se acumular água, já é utilizado por organizações não-governamentais e em propriedades privadas, como a fazenda Carapuça, visitada ontem pelo ministro em Afogados da Ingazeira (PE).
Na ‘‘barragem subterrânea’’ é feito um buraco no leito do rio, impermeabilizado com uma lona, cimento ou barro, que enche quando chove. A água acumulada é coberta por terra e é utilizada na agricultura. Cada ‘‘barragem subterrânea’’ custa entre R$ 80 e R$ 100. O anúncio do ministro não foi bem recebido por assentados ligados à Federação dos Trabalhadores na Agricultura de Pernambuco (Fetape).
Os trabalhadores disseram ao ministro que as barragens subterrâneas são importantes, mas elas precisam de muita chuva para que possam acumular água. ‘‘Mais vale um poço artesiano do que as barragens. Pode demorar até cinco anos para essas barragens encherem. O poço jorra água agora e mata nossa sede’’, afirmou José Carlos Gouveia da Silva, 52 anos. Da porta do avião, minutos antes de embarcar para Brasília, o ministro respondeu: ‘‘Vamos fazer poços também’’.
Jungmann foi pressionado por cerca de 50 trabalhadores rurais assentados pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) no município. Eles denunciaram ao ministro que a única ajuda do governo federal que chegou ao local foram 1.060 cestas básicas.
Depois de ouvir uma dezena de reclamações sobre a atuação do governo no combate aos problemas gerados com a seca, o ministro chamou o assentado João Mário Filho, que expunha os problemas, de ‘‘contadorzinho’’ e foi surpreendido com a reação do trabalhador.
Filho colocou as duas mãos abertas no peito do ministro e disse: ‘‘Minhas mãos têm muito mais calos que a do senhor’’. Jungmann concordou e voltou a brincar com Filho, chamando-o novamente de ‘‘contadorzinho’’, já que ele era o mais falante entre as pessoas presentes.
‘‘Então, ministro, duvido que o senhor aceite meu convite para almoçar na minha casa. Se colocar prego para cozinhar com o feijão distribuído pelo governo, o prego fica mole e o feijão, duro’’, disse . ‘‘É só marcar a data’’, respondeu o ministro.
O ministro da Justiça, Renan Calheiros, afirmou ontem, que os saques ocorridos no Nordeste poderão causar um ‘‘clima de baderna’’ na região e arranhar a ordem pública. ‘‘Não são mais saques famélicos, mas uma coisa organizada com ampla cobertura da mídia’’, observou Calheiros. Ele afirmou que o governo está ‘‘preocupado’’ com os ataques a caminhões, supermercados e armazéns, que, garante o ministro, são comandados pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST).
Até ontem o governo federal não havia recebido nenhuma resposta da carta enviada, na semana passada, aos governadores do Nordeste. O Ministério da Justiça pedia empenho dos Estados para aplicar as decisões tomadas na reunião do Conselho de Segurança do Nordeste, como a aplicação de medidas penais contra quem incentivasse os saques.
A Secretaria de Políticas Regionais decretou ontem estado de emergência em quase 200 municípios do Nordeste e de Minas Gerais, por causa da seca. Com isso, são quase 1,4 mil municípios afetados, mais de 20% do total.

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