Dom Geraldo Majella Agnelo, 67 anos, ex-arcebispo de Londrina e arcebispo de Salvador (BA), foi nomeado cardeal anteontem pelo papa João Paulo II. Ele atuou em Londrina no período de 1983 a 1991. O principal trabalho do arcebispo na cidade foi a fundação da Pastoral da Criança, ao lado da médica Zilda Arns que concorre este ano ao Prêmio Nobel da Paz. Ontem, em entrevista à Folha ele falou sobre sua novas atribuições. Como passa a integrar o colégio de cardeais do Vaticano –a posse ocorrerá em fevereiro– , dom Geraldo explicou também o processo da escolha de um novo papa, do qual passará a fazer parte, apesar de não acreditar numa renúncia de João Paulo II.
Folha – Com o título de cardeal suas responsabilidades aumentam. Quais serão suas novas atribuições?
Dom Geraldo – Acresce ao meu trabalho estar a serviço do santo padre e do Colégio Cardinalício. O colégio é um órgão de consulta e de colaboração ao santo padre. Assim, toda vez que o papa quiser e necessitar ele nos chama para consultar. Os cardeais são nomeados para serem membros de alguma congregação romana. Assim, aumentam os meus compromissos fora da diocese de Salvador, mas em vista de todo o bem da Igreja.
Folha – Isso não implica em retorno ao Vaticano?
Dom Geraldo - São possibilidades, mas não está relacionado com a nomeação. Eu tenho algumas participações em Roma, como a comissão pontifícia para os migrantes e intinerantes, dos congressos eucarísitcos internacionais. Para chefia, como eu já trabalhei, aí é necessária dedicação exclusiva.
Folha - Como funciona o colégio cardinalício na sucessão do papa?
Dom Geraldo - Participam do conclave (reunião para a eleição) apenas os cardeais com menos de 80 anos. O código de Direito Canônico determina um número máximo de 120 membros. Mas com esse novo número criado pelo papa é certo que ultrapasse um pouco. É claro que o santo padre é o supremo legislador da Igreja, assim, tem autoridade para ultrapassar esse limite, que deve ser em torno de 134 cardeais.
Folha – Como é feita a escolha de um papa, existe um candidato?
Dom Geraldo - A escolha é por voto independente, não existem candidatos, partidos ou chapas. Não há nenhuma propaganda eleitoral. O escolhido precisa receber dois terços da votação. Há sempre uma pela manhã e uma à tarde, não existe um tempo determinado para o conclave. Os cardeais ficam reunidos até que alguém receba o número de votos necessários. Pode acontecer que alguém seja lembrado pelo seu trabalho e, quem sabe, se essa pessoa receber mais votos desde o início, aconteça uma convergência.
Folha - Houve um aumento no número de cardeais nas américas. Quais são as chances de um papa latino-americano?
Dom Geraldo - Ela sempre haverá, pois por 400 anos não havia um papa que não fosse italiano. João Paulo II como polonês, quebrou esta tradição. Então agora que há uma internacionalização maior da Igreja, com o que se chama de globalização onde tudo se comunica com rapidez e até mesmo simultaneamente, pode ser que um outro continente possa dar alguém que seja eleito.
Folha – Quais são as chances do Brasil?
Dom Geraldo - As chances do Brasil são as de possuir sete cardeais que poderiam entrar num conclave. Somos oito cardeais brasileiros mas um deles, dom Eugênio Sales, já completou 80 anos.
Folha – Quanto à modernidade e os meios de comunicação, o que fazer para conviver com eles? O senhor que é preciso proibir alguma coisa?
Dom Geraldo - A convivência não está em proibir de ligar a televisão, mas dar uma consciência crítica a cada um e uma formação para que saibam o que é bom pra si, e deixar de lado o que não é bom. É formar uma consciência comum para que os que são detentores de canais saibam usar destes meios. Saibam promover o bem e não o mal e concorram para uma educação sadia de nossa gente. O mal não deve ter liberdade para ser difundido. Não vamos pensar numa censura aos meios de comunicação. Os que são responsáveis e que devem ter consciência de concorrer para a formação e não a deformação da sociedade.
Folha - Qual a sua mensagem para este novo milênio?
Dom Geraldo – Aos nossos fiéis, aos nossos cristãos, aos nossos batizados eu posso desejar que acompanhem o plano de evangelização da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). E, que neste próximos três anos tenham a preocupação de crescer como Igreja e a viver em comunidade. Pois sem essa vivência não somos verdadeiramente Igreja. Que a evangelização contribua sempre mais para isso.

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